Panorama internacional

Tensão na América Latina: Venezuela diz que presença militar dos EUA na Guiana ameaça região

A descoberta de grandes reservas de petróleo na região de Essequibo, na Guiana, reacendeu uma disputa histórica entre o país e a Venezuela. E, nesta quarta-feira (8), há mais um capítulo da tensão na América do Sul: o ministro das Relações Exteriores venezuelano, Yván Gil, rejeitou o anúncio da presença militar dos EUA a pedido do vizinho.
Sputnik

"A Venezuela rejeita veementemente o anúncio conjunto feito pela Guiana e o governo dos Estados Unidos, que relataram um aumento na presença militar na região, com o objetivo de proteger empresas energéticas norte-americanas, o que se torna a maior ameaça à estabilidade do Caribe e da América Latina", disse em comunicado oficial.

Enquanto Georgetown diz que o conflito sobre a região foi resolvido em um tribunal arbitral em 1899, Caracas defende que um terço do território do país vizinho está nos seus limites, definidos por fronteiras naturais desde a independência com a Espanha. O caso também está sendo julgado pela Corte Internacional de Justiça (CIJ).
As tensões entre os dois países sul-americanos aumentaram após as licitações da Guiana para a exploração de petróleo no Essequibo por empresas dos Estados Unidos, principalmente a gigante ExxonMobil. O governo Nicolás Maduro chegou a convocar um referendo previsto para dezembro, quando a população vai decidir se o território é da Venezuela ou não, o que gerou reações de Georgetown.
No fim do mês, Maduro insistiu que as declarações do presidente da Guiana, Irfaan Ali, colocam em risco a estabilidade da América Latina e do Caribe. "As medidas tomadas nas últimas semanas são simplesmente uma insolência contra toda a paz no continente. A Guiana se torna uma ameaça à paz, à estabilidade e ao direito internacional em toda a região do Caribe", afirmou à época o presidente durante a transmissão de seu programa de televisão Con Maduro Más.
Já Irfaan Ali assegurou que o seu país não entregaria nenhum metro quadrado do território à Venezuela. Ali também alegou que confia que as Forças Armadas defenderiam os interesses da Guiana. Nesta semana, ainda, anunciou o acordo militar com os norte-americanos.
Território de Essequibo, área sob disputa entre Guiana e Venezuela

Recusa em manter diálogo

Em comunicado, Caracas denunciou que Ali segue recusando manter um diálogo direto com a Venezuela e questionou o fato de ele, em vez disso, fazer acordos com "a potência militar mais agressiva da história da humanidade, por meio de seu chamado Comando Sul".
A Venezuela alertou a comunidade internacional, especialmente os países do Caribe, sobre as perigosas manobras da Guiana, único país da região que tem como língua oficial o inglês.
Para Caracas, essas ações são motivadas pela "ambição financeira desmedida de sua classe dirigente e sua obstinada recusa em cumprir as normas internacionais". O Congresso do país convocou um referendo consultivo para o dia 3 de dezembro. Já a Guiana qualificou a iniciativa como um "plano sinistro da Venezuela para se apossar do território guianês" e pediu que a CIJ impeça a consulta.
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Venezuelanos marcham em Caracas contra sanções e em defesa do território de Essequibo (FOTOS)

PIB cresceu 62,3% só em 2022

Dos 14 blocos petrolíferos descobertos na região do Essequibo, 8 são explorados pela ExxonMobil. Para Caracas, há uma conspiração dos Estados Unidos para retirar do país os seus direitos sobre o território, que representa dois terços da Guiana.
A expansão petrolífera na Guiana tornou o país com o maior índice de crescimento mundial: só neste ano, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), já ultrapassa 38%. No ano passado, o número chegou a 62,3% de aumento econômico, em um país que entre 2006 e 2022 viu a taxa de pobreza cair de 60% para 40%. O país tem pouco mais de 800 mil habitantes e é o único da América do Sul que tem o inglês como idioma oficial.

Mais de 100 anos de disputa

Há mais de 100 anos que a Venezuela e a Guiana têm disputado a soberania da região de Essequibo, que abrange cerca de 160 mil quilômetros quadrados a oeste do rio Essequibo e possui grandes reservas de petróleo.
Em 1966, as nações assinaram um acordo para procurar uma solução pacífica para esta disputa, mas em 2018 a Guiana apresentou uma ação perante o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), na qual pede ao tribunal que valide legalmente a sentença arbitral de 1899, que lhe confere controle absoluto sobre a região.
O Parlamento venezuelano convocou, em 21 de setembro, um referendo consultivo para que os venezuelanos expressem sua opinião sobre a disputa por meio do voto. A administração de Ali qualificou a iniciativa como um "plano sinistro da Venezuela para se apossar do território guianês" e a apresentou perante a CIJ para impedir a consulta.
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