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Especialista: 7 de Setembro visa confirmar estabilização, mas conciliação é faca de 2 gumes

As comemorações da independência do Brasil nesta quinta-feira (7) devem sinalizar, de um lado, uma estabilização do governo Lula e, de outro, uma retomada do prestígio das Forças Armadas, segundo avaliam pesquisadores ouvidos pela Sputnik Brasil.
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Em meio a escândalos de corrupção envolvendo membros das Forças Armadas, tramitação de PEC voltada para a despolitização de militares e descontentamento do setor com concessão de medalhas da Marinha a líderes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Jair Bolsonaro, sua família e lideranças associadas ao bolsonarismo têm evitado se manifestar sobre as mobilizações oficiais para o 7 de Setembro.
A data, que marca a independência do Brasil de Portugal, recebe uma atenção especial neste 2023, já que nos últimos anos esteve fortemente associada a Bolsonaro e seus apoiadores. Sem ele, muitos bolsonaristas têm defendido um boicote total ao evento.
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Bolsonaristas pregam boicote ao 7 de Setembro do governo Lula
Parte dos seguidores do ex-chefe de Estado tem atacado fortemente as Forças Armadas, acusando-as de traição por não terem apoiado um possível golpe contra Lula e por, agora, protagonizarem um desfile que é visto por alguns como o ponto alto da conciliação entre os militares e o atual presidente, que, até pouco tempo, estavam em lados opostos da polarização que atingiu o país em cheio desde as eleições de 2018.
A expectativa de tumultos era grande, sobretudo em razão dos atos violentos registrados na última vez que bolsonaristas radicais foram a Brasília demonstrar toda a sua insatisfação com a mudança de governo. Mas, com os pedidos de boicotes e a implantação de um forte esquema de segurança, os receios de um confronto de grandes proporções diminuíram. Ainda assim, o ministro da Justiça, Flávio Dino, enviou um alerta sobre a convocação de manifestações ao governo do Distrito Federal, que criou um gabinete de mobilização para a data.
"Eu acho que não vai acontecer nada de mais sério neste 7 de Setembro", opina, em entrevista à Sputnik Brasil, o historiador João Roberto Martins Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Para o acadêmico, o evento de amanhã dificilmente servirá como um termômetro do bolsonarismo, justamente por existir um grande aparato de segurança e pelas autoridades e a sociedade terem em mente os antecedentes de 8 de janeiro.
Se a data não guarda mais muita relação com os apoiadores de Bolsonaro, por outro lado pode significar muito para o governo Lula e para as Forças Armadas, segundo avalia o especialista.
"Com relação ao governo Lula, eu não diria exatamente [que pode mostrar] um fortalecimento, mas um capítulo a mais de um processo de estabilização do governo Lula. Que começou com muita instabilidade, promessa de instabilidade, e foi, pouco a pouco, se firmando. Eu citaria uma série de coisas que beneficiaram o governo: o sucesso que Lula tem tido em suas viagens internacionais, a estabilização da economia, o próprio fato de o 8 de janeiro ter sido um tiro pela culatra para os bolsonaristas mais radicais e, por último, uma certa conciliação que foi feita com os militares. Tudo isso foi fortalecendo o governo Lula. De certa maneira, este 7 de Setembro é para confirmar essa ideia de estabilização."
Entre os militares, ainda de acordo com Martins Filho, o sucesso do 7 de Setembro pode ser interpretado como "um movimento no sentido de retomada do prestígio das Forças Armadas, que anda muito abalado, como foi verificado na pesquisa Quaest, que deu uma queda de 10% no prestígio e um aumento de 10% no desprestígio das Forças Armadas".
"No caso do Brasil, o 7 de Setembro sempre foi uma comemoração militar, onde a única coisa que cabe ao povo brasileiro é sentar nas arquibancadas para ver o desfile de tropas", afirma o professor, explicando que isso está muito ligado à forma como ocorreu a independência do país, com a passagem de poder de um rei português para um príncipe português. "Mas foi vergonhosa a forma como Bolsonaro se apropriou de uma data nacional para fazer propaganda, como se ela fosse uma data dele, do bolsonarismo. E mais vergonhoso ainda é o fato de como ele se apropriou do bicentenário da independência do Brasil para fazer discursos eleitoreiros, para tentar envolver as Forças Armadas como parte de uma celebração que interessava a ele, diante da perspectiva de eleições em 2022. Então, de certa maneira, há uma certa normalidade porque o Bolsonaro acaba não sendo mais o dono dessas celebrações."
A cientista política Ariane Roder, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), compartilha da ideia de que há um clima de normalidade pairando sobre os eventos desta quinta-feira (7). Também em declarações à Sputnik Brasil, ela argumenta que "se, há um ano, nutria-se a expectativa de golpe, com movimentos que visavam esgarçar a democracia, atingindo as instituições democráticas e os Poderes da República, sendo orquestrados pelo próprio gabinete presidencial, neste ano a mensagem que se busca passar é inversa".

"A expectativa para 7 de setembro de 2023 é que as Forças Armadas atuem com discrição e conformidade", avalia. "Nesse caso, a ordem é restaurar a imagem das Forças Armadas e submetê-las, como manda a Constituição, ao poder civil", acrescenta.

Como força de Estado e não de governo, as instituições militares, segundo Roder, vêm buscando um afastamento dos escândalos e das suspeitas que envolvam seus agentes. E o governo de Lula, por sua vez, "tem se preocupado em evitar tratar o assunto da orquestração de golpe de Estado com as instituições militares, de modo a evitar movimentos de cisão, rebelião, mitigando efeitos adversos e não desejáveis para a jovem democracia brasileira".
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Embora a conciliação com os militares tenha colaborado para a estabilidade do atual governo, isso, no entendimento de João Roberto Martins Filho, se dá a um "preço muito alto".
"Porque não só o presidente Lula não afirma a sua autoridade de chefe das Forças Armadas e, portanto, ele perde poder, como também isso é transitório. A qualquer momento, uma crise pode gerar, de novo, uma ação das Forças Armadas a favor do lado em que elas se colocaram, que é a direita", afirma o historiador.

"A conciliação com os militares é uma faca de dois gumes. Ela gera uma certa estabilidade conjuntural, mas, a longo prazo, só empurra com a barriga a questão da necessidade de submeter os militares às regras da democracia."

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