Panorama internacional

'Evento importantíssimo para Rússia': veja as prioridades da presidência russa do BRICS em 2024

Rússia assume a presidência do BRICS em ano de expansão histórica do grupo e redefinição geopolítica global. A Sputnik Brasil conversou com analista russo e diplomata iraniano para saber quais as prioridades da Rússia e dos novos membros do BRICS em 2024.
Sputnik
Em 1º de janeiro, a Rússia assumirá a presidência do BRICS, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Moscou vai liderar a agremiação em um momento de expansão histórica, com a entrada de cerca de cinco novos membros.
Durante sua conferência de imprensa anual, o presidente russo Vladimir Putin declarou que o BRICS sob a presidência russa trabalhará pela construção de uma ordem mundial justa.
"Isso mostrará que existe um grande número de forças no mundo, de países poderosos que querem viver não de acordo com as 'regras não escritas', mas sim de acordo com as regras prescritas nos documentos fundamentais, como a Carta da ONU", disse Putin.
Alguns dias antes, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, havia declarado quais as áreas prioritárias para a presidência russa do BRICS em 2024.
"Será dada especial atenção à integração orgânica dos novos membros do BRICS na arquitetura do sistema multilateral de cooperação", disse Lavrov a jornalistas. "Outras prioridades incluem o aumento da coordenação política externa no formato BRICS, principalmente nas principais plataformas internacionais, fortalecimento da interação sobre o combate ao terrorismo, lavagem de dinheiro, segurança da informação internacional, bem como devolução de bens obtidos por meios ilícitos."
Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov (à esquerda) e seu homólogo brasileiro, Mauro Vieira (à direita), durante reunião do BRICS às margens da Assembleia Geral da ONU, em 20 de setembro de 2023
Nesta terça-feira (19), o diretor do Clube de Discussões Valdai, Oleg Barabanov, avaliou as perspectivas da presidência russa do BRICS durante encontro do clube, realizado em Moscou.

"A presidência do BRICS será um dos acontecimentos internacionais mais importantes para a Rússia em 2024. Os objetivos são ambiciosos. Isso prova que a Rússia não está isolada depois dos acontecimentos de 2022 e pode organizar eventos com ampla repercussão internacional", disse Barabanov à Sputnik Brasil.

O especialista notou que o grupo já se reuniu em uma série de cúpulas, com muitos ganhos na área de valores e princípios: "Mas agora temos a oportunidade de avançar do plano declaratório e simbólico para questões concretas, como a cooperação econômica."
"A questão de sistemas de pagamento e transações vai para o primeiro plano. Debates sobre a moeda única permanecem como objetivo de longo prazo, mas o que teremos agora é otimização de pagamentos e melhores mecanismos para trocas em moedas nacionais", declarou Barabanov. "Esses assuntos são importantíssimos para a Rússia agora."
A transição da presidência da África do Sul para a Rússia já começou. Entre os dias 30 de novembro e 3 de dezembro, foi realizada a reunião de sherpas e sub-sherpas dos países do BRICS, com a participação do vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov.
Diretor do Clube de Discussões Valdai, Oleg Barabanov, durante evento sobre a presidência russa do BRICS, 19 de dezembro de 2023, em Moscou, Rússia
Durante o encontro, a Rússia apresentou o seu plano de presidência, conforme reportou o jornal russo Kommersant. Além do foco nas transações em moedas nacionais, os russos darão prioridade finalizar a nova categoria de "Estados parceiros" do BRICS e maior integração cultural, juvenil e esportiva.
Para realizar esses objetivos, a Rússia já anunciou a realização de mais de 200 eventos do BRICS para 2024, incluindo os Jogos do BRICS na cidade de Kazan, a reunião de ministros das Relações Exteriores na cidade de Nizhny Novgorod e a Cúpula de Chefes de Estados, prevista para outubro de 2024, também em Kazan.

Novos Membros

A integração dos membros convidados a entrar no BRICS também será uma prioridade da presidência russa. Durante a Cúpula de Joanesburgo do bloco, realizada em agosto de 2023, a agremiação convidou Arábia Saudita, Argentina, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Irã a entrarem no BRICS.
Sessão II do Diálogo de Amigos do BRICS em Joanesburgo, África do Sul
Com a provável exceção da incerta Argentina sob o seu novo presidente, Javier Milei, os novos membros devem iniciar os seus trabalhos a partir de janeiro.
Durante o evento desta terça-feira organizado pelo Clube Valdai, o ex-embaixador do Irã na Ucrânia (2018-2022), Manoochehr Moradi, declarou que as prioridades de Teerã durante seu primeiro ano como membro do BRICS serão a expansão do acordo contingente de reservas do grupo, aumento da cooperação econômica e comercial e a adesão do Irã ao Banco do BRICS.
"O Irã está sob sanções há 40 anos, então precisamos aproveitar todas as oportunidades neste setor. O Banco do BRICS é uma dessas janelas abertas", disse Moradi à Sputnik Brasil. "O futuro do BRICS fica mais claro ao lado de iniciativas como o BRICS Pay e o Novo Banco de Desenvolvimento."
Segundo o embaixador iraniano, esses mecanismos são os mais capazes de "modificar o status quo, no qual o Ocidente concentra poderio econômico para usá-lo como instrumento".
Presidente do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS, Dilma Rousseff, participa da 15ª Cúpula do BRICS em Joanesburgo, África do Sul, 22 de agosto de 2023
O presidente Vladimir Putin já convidou o presidente dos EAU, Mohamed bin Zayed Al Nahyan, para a Cúpula dos Chefes de Estado do BRICS em Kazan, durante recente visita do líder russo aos emirados.
Em recente evento em Moscou, Putin também ressaltou o papel central que a Etiópia terá no BRICS, notando que a Rússia apoiou a candidatura etíope desde o início e trabalhará para incluir o país em todas as atividades do grupo, reportou a TV BRICS.
A presidência russa do BRICS se estenderá do dia 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2024 e será sucedida pela presidência do Brasil, em 2025. De acordo com a tradição do grupo, o Brasil deveria assumir a presidência em 2024 e a Rússia em 2025. No entanto, o Itamaraty solicitou a troca de lugar com a Rússia, uma vez que o Brasil ocupa a presidência rotativa do G20 em 2024.
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