Panorama internacional

'Sangue fresco nas paredes': vítimas contam como foram torturadas pelas forças de Kiev

Duas mulheres e um homem contaram seus casos de como acabaram nas mãos de nacionalistas ucranianos, e a que privações eles foram sujeitos, incluindo até seus familiares.
Sputnik
As provas dos crimes de guerra da Ucrânia continuam multiplicando apesar do incessante apoio a Kiev demonstrado por países ocidentais, e reiterado na última cúpula da OTAN em Vilnius, Lituânia.
Em junho o Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas relatou dezenas de casos de civis torturados "em instalações oficiais de detenção pré-julgamento" pelas forças de segurança ucranianas.
A Sputnik falou com três sobreviventes das pessoas torturadas pelas forças de Kiev, e determinou que não se tratam de casos isolados.

Ex-policial e filho torturados

Larisa Gurina, ex-policial de Carcóvia, relatou como após os povos de Donbass e a Crimeia resistirem ao golpe de Estado em Kiev em 2014, incluindo ela, o governo ucraniano iniciou uma "operação antiterrorista" na região de Donbass.
Larisa coletou ajuda humanitária para as pessoas carentes da região que perderam suas casas e pertences durante a operação, que levou a ataques e bombardeios indiscriminados que acompanharam a região. Ela foi detida pelas autoridades ucranianas em 16 de março de 2015, que a acusaram injustificadamente de traição, de minar a ordem constitucional e de invadir a integridade territorial da Ucrânia.
Ela lembrou ter sido presa, por um grupo de 19 pessoas que arrombou e saqueou sua casa em Carcóvia. Gurina não teve acesso a advogado, e tinha sido espiada pelo Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU, na sigla em ucraniano). Seu filho também foi detido.
Ela foi repetidamente interrogada em uma câmara de tortura subterrânea ao longo de um ano, sendo que sua primeira vez durou 37 horas seguidas.
"Você podia gritar lá o quanto quisesse, ninguém de cima ouviria. Às vezes, eles me trancavam no banheiro. Era um cômodo de 15 metros quadrados. A altura do teto desse prédio era alta, cerca de 3,5 metros. As paredes desse cômodo eram cobertas de revestimentos. Imagine só: as pessoas eram espancadas com tanta força que o sangue espirrava até o teto. Eles lavavam o sangue dos revestimentos, mas no teto essas manchas marrons, às vezes ainda não totalmente marrons, permaneciam", relatou.
Panorama internacional
Rússia pede que ONU e Cruz Vermelha pressionem Ucrânia a parar com tortura contra prisioneiros
A vítima lembrou ter sido inclusive batida na cabeça e no estômago, e que ameaçaram matar seu filho, sua mãe e a neta. A ex-policial tentou contrariar isso proclamando indiferença para com eles, "embora esse fosse o maior medo, a maior dor".
No entanto, sua maior dor foi ter de ver seu filho sendo batido quase até a morte.
"Meu filho foi transformado em um saco de ossos; ele estava completamente preto [por causa dos hematomas]. Ele não tinha rosto; seus dois braços e várias costelas estavam quebrados", comentou ela.
Larisa Gurina teve a sorte de seus amigos oferecerem um grande suborno aos corruptos funcionários do SBU, que permitiu que fosse liberada, apesar de ser advertida de que o seu caso estava novamente na mesa do promotor. Ela fugiu de Carcóvia sem levar nenhum pertence e, mais tarde, conseguiu chegar à Rússia.

Aleksandra: 'São piores que os fascistas'

Aleksandra Valko, uma russa residente na região de Donbass, também se lembra de ser torturada. Ela viveu na cidade russa de Inta, antes de se mudar para Pervomaiskoe, um vilarejo a 74 quilômetros de Donbass, e se opôs igualmente aos eventos de 2014. Tal como ela, Valko se envolveu em trabalho humanitário.
Após o começo da "operação antiterrorista" pelo Batalhão Azov e o Pravy Sektor (organizações terroristas proibidas na Rússia), Valko foi uma das primeiras a ser capturadas. Acusada de ser uma ativista pró-russa, ela foi presa em 27 de janeiro de 2015 por 19 dias após ter seu apartamento arrombado à noite por 12 pessoas desses grupos.
Ela foi interrogada com um chapéu enrolado em fita adesiva em sua cabeça para que não pudesse ver nada. O abuso físico provocou três fraturas no seu rosto, um nariz quebrado e dentes arrancados, antes de ser cutucada com uma faca, incluindo uma ameaça de arrancar seus olhos. Além disso, teve suas unhas arrancadas, e foi mantida algemada por 14 dias, fazendo com que seus pulsos e dedos infeccionassem. Suas pernas estavam feridas e sangravam profusamente.
Cinco crianças escondidas em porão de uma casa em meio a disparos das Forças Armadas da Ucrânia em Gorlovka
Os abusadores não a alimentaram nem permitiram que ela fosse ao banheiro. Aleksandra perdeu 53 quilogramas durante o cativeiro. Após implorar aos carcereiros que a deixassem chamar um advogado, ela ouviu "Terroristas não podem ter um advogado" em resposta.
"E o tempo todo me diziam que eu havia nascido na Rússia, e que era uma sabotadora de Rostov-no-Don", mencionou a mulher.
Mais tarde foi transferida para outro quarto, onde havia buracos de bala e sangue fresco nas paredes, e recebeu um pouco de peixe enlatado misturado com água crua e areia. Como no caso de Gurina, os nacionalistas ucranianos ameaçaram Valko de causar danos a seus entes queridos, e torturaram também sua filha, a qual podia ouvir chorando do outro lado da parede. Valko também viu outros prisioneiros famintos e severamente espancados, sujos e banhados em sangue.
"Eles não são pessoas, são fascistas", sublinhou Valko.
"Eles precisam ser eliminados. Eles não tiraram apenas 19 dias de minha vida – eu perdi 20 anos de minha vida depois de ser torturada, após passar por tudo isso. Havia muitas pessoas como eu lá. Não acreditem nos banderitas. Eles são piores que os fascistas."
Operação militar especial russa
Rússia investiga assassinato de prisioneiros de guerra russos na Ucrânia por mercenários franceses
Seus atormentadores a levaram a uma esquadra policial quando se aperceberam de que estava prestes a morrer. Um oficial policial a colocou sob prisão domiciliar, o que salvou sua vida, e fugiu de Carcóvia a caminho de Donetsk com a ajuda de seus amigos.

Quase 2 anos no cativeiro

Andrei Sokolov, um especialista em metalurgia, proprietário de uma oficina em Moscou, se voluntariou em 2014 para a usina Topaz na República Popular de Donetsk.
Sokolov foi convidado a ir a Donbass para inspecionar várias instalações industriais em Donbass que precisavam ser restauradas após os bombardeios do regime de Kiev na região. Ele disse ter passado por engano em dezembro de 2014 em um posto de controle ucraniano quando se deparou com o SBU, que viu seu passaporte russo e considerou isso suficiente para o deter.
O trabalhador não foi levado à polícia, mas mantiveram o homem em várias instalações por duas semanas sem registrar seu status ou acusá-lo de um crime. Ele foi desaparecido assim, com os familiares e amigos de Andrei perdendo contato com ele.
"Por duas semanas, primeiro fui mantido no local de uma unidade militar ucraniana, em um porão cercado com grades improvisadas", disse Andrei.
"Depois disso, eles me transferiram para outra unidade militar e me mantiveram em um contêiner de transporte que ficava na rua e, portanto, não havia janelas, nada, as portas estavam trancadas e eu nem sabia se era dia ou noite."
Após ser levado por uma semana ao que ele acreditava ser um centro de detenção temporária em Volnovakha, perto de Mariupol, sem um investigador, policiais ou advogado, ele se lembra de ser forçado a fazer uma "confissão" para a câmara, onde foi forçado a responder da maneira "correta". Quando não o fazia, a câmara parava e ele era batido na cara para o fazer "regressar ao guião".
Após ouvirem sua história, o SBU acusou Andrei Sokolov de querer produzir armas para os rebeldes de Donbass.
Sokolov tentou fugir repetidamente, mas foi sempre capturado. Finalmente, ele partiu em liberdade em outubro de 2016 após uma troca de prisioneiros com a República Popular de Donetsk.

Tortura na Ucrânia

Apesar de tudo, houve muitos capturados pelas forças afiliadas a Kiev que nunca regressaram. Em março de 2019, o tenente-coronel Vasily Prozorov do SBU, que desertou para a Rússia, realizou uma coletiva de imprensa na qual contou aos jornalistas sobre uma prisão secreta e local de tortura no aeroporto de Mariupol administrado pela SBU e pelo Batalhão Azov, que incluía casos de afogamento de prisioneiros em gasolina.
Panorama internacional
Militantes ucranianos montaram câmara de tortura no aeroporto de Mariupol, revela comitê russo
Daria Morozova, comissária para os direitos humanos na República Popular de Donetsk, detalhou como entre os mais de 1.300 pessoas trocadas como prisioneiras, "quase todos" foram "sujeitos a tortura", e que a situação segue piorando, com a Ucrânia agora publicando avidamente provas visuais de tais casos.
Ela vê o aumento destes crimes como resultando da falta de vontade por parte do Ocidente de julgar as violações de direitos humanos por parte de Kiev.
Comentar