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'Influência ocidental'? Especialistas explicam a relação de Brasil e Israel na cooperação policial

© Foto / Divulgação / Polícia Federal Agentes da Polícia Federal (PF) caminham próximo a viaturas da corporação estacionadas na Zona Portuária do Rio de Janeiro (RJ). Brasil, 16 de novembro de 2023
Agentes da Polícia Federal (PF) caminham próximo a viaturas da corporação estacionadas na Zona Portuária do Rio de Janeiro (RJ). Brasil, 16 de novembro de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 16.11.2023
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"Nenhuma força estrangeira manda na Polícia Federal", afirmou o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, após o gabinete do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, afirmar que a agência de inteligência Mossad contribuiu com investigações brasileiras para prender suspeitos de integrar o grupo libanês Hezbollah em território brasileiro.
As declarações reacenderam a polêmica sobre a interferência estrangeira nas investigações brasileiras, lembrando uma possível atuação do FBI na Operação Lava Jato.
Para o doutor em ciência política e professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), Thomas Ferdinand Heye, algumas instituições brasileiras tradicionalmente eram "passivas" às influências externas de autoridades estrangeiras do Ocidente.
Ele narra que, depois do ataque aos prédios do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, o governo dos Estados Unidos passou a monitorar descendentes de libaneses em território sul-americano, em busca de ligações com grupos ditos terroristas.
"Depois do 11 de setembro, os EUA começaram a fazer ingerências junto às inteligências brasileira, paraguaia e argentina, justamente para monitorar o que as pessoas de origem libanesa faziam no Brasil."

Há integrantes do Hezbollah no Brasil?

Para Heye, tornou-se sabido, a partir de investigações, que não havia indícios de colaboração de descendentes e imigrantes libaneses com criminosos no Oriente Médio, que fugiam de guerras civis que ocorriam em seu país de origem. "Para nós, seja no Brasil ou na Argentina, não havia nada de suspeito e ilegal."
O grupo Hezbollah foi formado depois que Israel invadiu parte do sul do Líbano, em 1982. Além do braço armado, há os setores políticos, que participam das eleições e se tornaram peça importante nas articulações do país.

"Naquele momento, os americanos estavam apontando que as pessoas estavam financiando terrorismo. Mas qualquer imigrante no mundo inteiro manda dinheiro para casa. O Hezbollah tem um braço militar, mas eles também têm creches, escolas, etc. Não necessariamente uma pessoa manda dinheiro para casa pensando em financiar o terrorismo internacional."

A professora de relações internacionais da Unisagrado, Letícia Rizzotti, comenta que o Brasil não costuma ter células de grupos xiitas, por exemplo, e que tais atribuições são feitas por aqueles que querem polarizar o discurso público.

"Já se tentou emplacar isso, em grupos que apoiem Israel ou opostos a ele, especialmente as forças do bolsonarismo e das igrejas evangélicas neopentecostais, que têm um apego ideológico da imagem conservadora de Israel. Mas se continuar procurando células Hezbollah, não vai achar. Porque o Brasil não é alvo [de tais grupos]. É diferente do que seria a Argentina no século passado, por exemplo, que foi alvo de atentados. O Brasil não."

Qual a relação entre Israel e Brasil na cooperação de polícias?

Com apoio de serviços de inteligência de Israel, a Polícia Federal prendeu em 12 de novembro, no Rio de Janeiro (RJ), um terceiro suspeito de integrar o Hezbollah.
Outros dois suspeitos já haviam sido presos em São Paulo em outra operação, investigados por supostamente planejarem ataques contra a comunidade judaica no Brasil.
As investigações, que também tiveram colaboração dos EUA, apontam que um grupo de pelo menos quatro pessoas já teria mapeado possíveis alvos para ataques em diversos pontos do Brasil, inclusive contra a Embaixada de Israel, em Brasília (DF).
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Para a professora Letícia Rizzotti, a parceria entre corporações policiais tem se intensificado muito com o passar dos anos, mas que a atuação varia conforme o foco da investigação. "Isso é comum no âmbito jurídico mais amplo, tais como acordos judiciais e extradições. O Brasil tem uma série de acordos judiciais e são, recorrentemente, feitos de forma bilateral."
No entanto, a PF divulgou comunicado, posteriormente, em que repudiava declarações de autoridades de Israel sobre a Operação Trapiche, deflagrada para interromper os supostos "atos preparatórios de terrorismo", em que afirmavam que a Mossad havia apoiado a ação e que, com "outras agências de segurança internacionais", teriam conseguido evitar ataque terrorista no Brasil.

"Não cabe à PF analisar temas de política externa. Contudo, manifestações dessa natureza violam as boas práticas da cooperação internacional e podem trazer prejuízos a futuras ações nesse sentido", publicou a autarquia federal.

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Segundo a corporação, após a conclusão da investigação, relatório será apresentado ao Poder Judiciário, que poderá ou não dar andamento ao devido processo legal, conforme a legislação brasileira. "Cabe exclusivamente às instituições brasileiras definir os encaminhamentos e conclusões sobre fatos investigados em território nacional."
O próprio ministro da Justiça, Flávio Dino, afirmou que "nenhum representante de governo estrangeiro pode pretender antecipar resultado de investigação conduzida pela Polícia Federal".
"Apreciamos a cooperação internacional cabível, mas repelimos que qualquer autoridade estrangeira que cogite dirigir os órgãos policiais brasileiros, ou usar investigações que nos cabem para fins de propaganda de seus interesses políticos."

Qual a posição do Brasil em relação a guerra de Israel?

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) condenou ataques em Israel e na Faixa de Gaza, mas tem sido crítico quanto às motivações israelenses de ocupar o território e expulsar palestinos, comparando a atuação do Estado judaico com ações praticadas pelo Hamas.
A professora de política internacional e segurança da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Danielle Ayres, acredita que acordos de cooperação entre forças podem, ou não, influenciar politicamente cada território. "Depende do tipo de acordo e da maneira que é feito. Normalmente, quando são acordos que dizem respeito à questão das polícias, tem um pouco de dificuldade de você usar para fazer valer suas intenções políticas mundo afora, porque são acordos muito específicos."

"Agora, o que aconteceu no caso de Israel foi, na verdade, uma percepção de como eles entenderam o problema, como se eles tivessem dado ao Brasil a informação. E, na verdade, isso não tem a ver com o acordo em si, mas com a retórica que um Estado tem sobre a questão da guerra que está vivendo, do problema que está vivendo com aquele grupo específico e de toda a sua dinâmica geopolítica."

Ela avalia que o atual momento político no Brasil é de maior equilíbrio, ainda que alguns grupos possam tentar polarizar o discurso público. "Vimos a questão do Hezbollah e a questão dos brasileiros resgatados em Gaza, além da suposta reunião com o embaixador de Israel."
Para Rizotti, há diferentes acordos feitos entre países, com motivações distintas. "Uma coisa é o estabelecimento de cooperação no processo judicial, como prever crimes e punição, e o outro tipo é de cooperação tecnológica", explica, citando a aquisição de tanques de Israel pelo então governo de Michel Temer (MDB) ou pela Polícia Militar de São Paulo.
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No entanto, argumenta, é justamente a relação econômica entre os países que faz com que, pouco provavelmente, haja uma intenção de maiores influências por parte da ação israelense.
"Caminha mais em razão de uma aliança afetivo-ideológica do que realmente ter um impacto institucional. Israel não tem grandes interesses no Brasil, ao não ser vender tecnologias militares, e já o faz."
Ela entende que, dificilmente Israel abriria mão de ter o Brasil como um dos clientes de tecnologia — militar ou de saúde, por exemplo — em função de eventuais conflitos ideológicos.
"Ninguém gosta de deixar de vender. Não me parece que há indício mais claro de uma interferência política mais direta. O que pode acontecer é uma cooperação policial, a depender dos alvos", conclui.
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