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Com hegemonia ameaçada, EUA elegeram China como inimigo estratégico, aponta especialista

© MANDEL NGAN/AFPJoe Biden, presidente dos EUA, durante reunião com seu homólogo chinês, Xi Jinping (fora da foto), em 2021
Joe Biden, presidente dos EUA, durante reunião com seu homólogo chinês, Xi Jinping (fora da foto), em 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 15.08.2022
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A visita da presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, e de outros congressistas norte-americanos a Taiwan deu um sinal claro de que Washington quer provocar a China e tensionar ainda mais a relação entre os países, em uma estratégia caótica de uma potência com a hegemonia em decadência, segundo analistas.
Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam que a relação entre os países chegou a um novo ponto de inflexão após a visita dos congressistas a Taiwan. Os EUA escolheram a China como inimigo estratégico e, nessa empreitada, tentam isolar Pequim do mapa — em uma tentativa desastrada de reconstituição do cenário da Guerra Fria.
A China tem dado respostas pontuais — tanto com exercícios militares no estreito de Taiwan quanto com o cancelamento de plataformas de cooperação com os norte-americanos — que indicam que não vai aceitar esse tipo de provocação ao mesmo tempo que não pretende cair nas armadilhas de Washington com uma ação bélica no estreito de Taiwan.

"Se trata de um ponto de inflexão na história das relações da China com Estados Unidos, uma vez que, embora as investidas estadunidenses [remontem] desde 2018, esse episódio se trata de uma escalada, um novo nível de violação estadunidense, que, ao infringir de forma tão grave a soberania nacional e a integridade territorial chinesas, se configura como um ato de guerra", aponta Melissa Cambuhy, pesquisadora colaboradora do Núcleo de Estudos Brasil–China (NEBC) da Fundação Getulio Vargas (FGV) e do Instituto de Estudos da Ásia da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe), à Sputnik Brasil.

Para Cambuhy, que é doutoranda em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), essa ação dos EUA coloca a China em uma posição difícil para se encontrar uma mediação e indica uma tentativa de provocar e desestabilizar o país. "É justamente nessa posição que os EUA almejam colocar a China", pontua.
O presidente dos EUA, Joe Biden, em Washington, em 6 de novembro de 2021; e o presidente da China, Xi Jinping, em Brasília, no Brasil, em 13 de novembro de 2019 - Sputnik Brasil, 1920, 15.08.2022
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Evandro Menezes de Carvalho, professor de direito internacional da FGV e da Universidade Federal Fluminense (UFF), acredita que Washington "avançou mais uma casa na tensão com a China" com a ida de Pelosi a Taiwan.

"Além das tensões comerciais misturadas com defesa nacional promovidas por [Donald] Trump [ex-presidente dos EUA], o governo [Joe] Biden dá sinais de que está disposto a realmente se imiscuir nos assuntos internos da China", destaca o professor à Sputnik Brasil.

Até agora, nenhuma autoridade de Taiwan reivindicou independência, o que, para Carvalho, coloca a operação dos EUA na ilha em um patamar parecido com o do reconhecimento do ex-deputado Juan Guaidó como presidente da Venezuela, em 2019, pelos EUA e outros países do Ocidente.

"Nenhuma autoridade constituída de Taiwan declarou a independência de Taiwan até hoje. Essa discussão sobre ser um Estado ou não, a rigor, não se coloca, é descabida. Qualquer país que reconheça isso estará fazendo uma intervenção externa. É uma situação muito parecida com a de Juan Guaidó, que não governava nem 1 m² da Venezuela e foi reconhecido como presidente. Essa questão de Taiwan ser Estado ou não é claramente intervencionista", apontou.

China vai reagir às provocações do seu jeito

Carvalho, que também é coordenador do NEBC e do Núcleo de Estudos dos Países BRICS (Nubrics) da UFF, acredita que a China "não vai assistir a isso sentada, passiva; ela vai reagir". Para ele, as tensões devem resvalar em outras áreas, com eventuais "medidas de proteção ou retaliação em resposta à intervenção dos EUA nos assuntos internos dela". No entanto ele descarta um conflito armado neste momento — a menos que alguma autoridade de Taiwan reivindique independência.

"A gente vive um momento em que tudo é possível, menos um conflito armado direto. [...] Um conflito bélico agora iria prejudicar a China em outras prioridades. É claro que Taiwan é [um assunto] prioritário, mas a China pretende fazer tudo no tempo dela, não de outras potências", aponta Carvalho.

Cambuhy enxerga o quadro da mesma maneira. A pesquisadora destaca que a China rompeu uma série de acordos com os EUA, impôs sanções a Nancy Pelosi e familiares e montou um bloqueio aéreo e naval em Taiwan, além dos exercícios militares de larga escala e sem precedentes simulando um cerco militar à ilha.

"As medidas tomadas até agora encontraram uma mediação possível e perspicaz entre dar uma resposta à altura, tanto economicamente quanto militarmente, e não entrar em confronto aberto, para infelicidade dos EUA", indicou.

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'Não há espaço para compromisso': Pequim planeja usar todos os meios para reunificação com Taiwan
A pesquisadora avalia que o episódio "pode acelerar o processo de reunificação chinês, que tinha como meta que ocorresse até 2049 e que antes vinha sendo construído de forma pacífica por meio de cooperação econômica e outras, mas que agora vai tomando contornos mais agressivos".

EUA adotam estratégia duradoura de desestabilização da China

Na última semana, o governo de Joe Biden pareceu buscar um alívio nas tensões, que logo foi sobreposto pela segunda visita de parlamentares estadunidenses a Taiwan. Para Carvalho, o presidente dos EUA pode estar buscando uma "aproximação estratégica momentânea" para tentar "desanuviar um pouco e adiar o problema", o que neste momento seria de interesse tanto dele quanto do presidente chinês, Xi Jinping.

"A aproximação seria dentro de bases muito realistas. Os EUA não estão conseguindo alcançar os objetivos no conflito com a Rússia na Ucrânia e a cartada da Pelosi só beneficia a ela e ao [presidente russo, Vladimir] Putin, que se aproxima da China. Um conflito maior com a China prejudicaria o governo Biden, já bastante enfraquecido", destaca.

No entanto o professor acredita que isso é passageiro, afinal Washington tem adotado uma estratégia de forçar um isolamento chinês do restante do mundo, em uma tentativa de reedição da Guerra Fria — que parece não ter conseguido adesão de países da América Latina e da África.
"Os países já entenderam e não estão dispostos a entrar na lógica da Guerra Fria, que é completamente descabida hoje. A China está tão integrada ao modelo internacional que é a segunda maior economia do mundo", diz.
Cambuhy também não acredita em uma aproximação duradoura, afinal "os EUA elegeram a China como inimigo estratégico, alvo de sua atuação provocativa e desestabilizadora" diante da ameaça que Pequim representa à hegemonia norte-americana.
"Depois de uma série de outras tentativas de desestabilização, como a guerra comercial-tecnológica empenhada por Trump, depois as denúncias falsas de violação aos direitos humanos na região autônoma de Xinjiang, o apoio ao separatismo de Hong Kong, é difícil acreditar que essa grave escalada tenha sido obra do acaso ou guiada por questões meramente individuais da atuação de Nancy ou domésticas", aponta.

"Washington tenta levar a China ao limite buscando que o país não consiga resistir senão por uma saída bélica, com uso da força e do confronto, que é o que interessa aos EUA — seja econômica ou politicamente, afinal estamos falando de uma economia estagnada cuja estrutura produtiva se movimenta através de guerras e destruição mundo afora. Entretanto isso é o que definitivamente não interessa à China. À China interessam a estabilidade, a paz, o respeito ao direito internacional e o real multilateralismo, para que siga em sua trajetória ascendente de desenvolvimento econômico e tecnológico", destaca Cambuhy.

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