Especialistas discutem: quem aposta no cessar-fogo da guerra da Síria?

ENTREVISTA COM DIEGO PAUTASSO
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O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, e o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, e mais representantes da oposição síria anunciaram conjuntamente que, na sexta-feira, dia 26, deverá ser assinado um acordo de cessar-fogo na Síria que deverá entrar em vigor no sábado, 27.

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Esta é mais uma tentativa de pôr fim à guerra civil no país, iniciada em março de 2011 e que resultou em mais 4 de milhões de pessoas refugiadas e desalojadas, além de um número de mortos que, para organismos como a ONU, é de 250 mil e, para outros, supera os 470 mil.

O especialista Diego Pautasso, da Unisinos e da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio Grande do Sul, diz que será difícil a efetivação desse cessar-fogo, "dado que alguns dos grupos que se opõem ao regime de Bashar Assad são grupos terroristas, extremistas, que evidentemente não obedecem a acordos e normas”.

Pautasso pensa que os terroristas são o principal problema para a efetivação do acordo, “embora, por outro lado, seja possível que alguns desses grupos ou a maior parte deles queira um acordo, porque esse é um momento de ofensiva do regime, talvez seu melhor momento nos últimos tempos, e isso pode dar um fôlego para estabelecer algumas negociações e mesmo para os grupos terroristas ganharem algum acúmulo de forças e poder, e eventualmente, num segundo momento, voltar a enfrentar o regime e lhe produzir baixas”.

O Professor Diego Pautasso observa, ainda, que o Governo Bashar Assad estava avesso a essa tentativa de implementação do cessar-fogo, justamente por perceber que esse era o momento de avançar e conquistar as últimas cidades ou o resto do país.

"A Rússia, principal aliado, parece que pôs uma certa limitação ao Governo sírio, forçando essa proposta de cessar-fogo. Neste sentido, creio que talvez Assad seja forçado a participar desse acordo, dado também que a Síria depende fortemente do apoio russo para suas operações militares, logísticas e de inteligência."

Sobre as várias correntes oposicionistas, Diego Pautasso comenta que, quanto maior a quantidade de grupos e a diversidade ideológica entre eles, mais complexo se torna o arranjo político desse cessar-fogo.

"De todo modo", conclui Pautasso, "a situação de cansaço político e militar de mais de 5 anos de conflito pode ser um ingrediente importante na resolução de um cessar-fogo mesmo que parcial, mesmo que provisório e mesmo com eventuais usos de emprego da força em situações e pontos mais esporádicos do território sírio."

Outro especialista, Jonuel Gonçalves, da Universidade Federal Fluminense, diz que é imperioso destacar que o acordo foi anunciado pela Rússia e pelos Estados Unidos, e os dois países têm influência sobre algumas forças políticas – "e uma delas não é de pequeno porte, é exatamente o Governo, que está sob grande influência e depende muito do apoio russo".

"Há várias forças rebeldes", enfatiza o Professor Gonçalves, "as chamadas forças laicas, que dependem de fornecimentos ocidentais e já há algum tempo reclamam que o Ocidente está subalternizando essas forças, não está fornecendo equipamentos. É de se acreditar que os EUA tenham convencido esses combatentes de que, se respeitarem o cessar-fogo, ficam em melhor situação política, e, em caso de necessidade, o Ocidente poderia retomar o fornecimento de armamentos. Então, por duas razões distintas há dois blocos de atores internos da Síria que podem acompanhar os EUA e a Rússia nesse cessar-fogo."

Jonuel Gonçalves ainda questiona a capacidade de distúrbio do Daesh [o autodenominado Estado Islâmico] e se o acordo se aplica a forças que não o assinaram. Além disso, diz o especialista, "com experiências de outras guerras, estamos acostumados a verificar que o cessar-fogo anunciado para muitos dias depois – e muitos dias, num conflito desse tipo, bastam que sejam 48 horas – já dá margem de manobra a que diversas coisas se passem na região".

"Quer dizer, antes de o cessar-fogo entrar em vigor, muita gente vai tentar alterar a correlação de forças fazendo operações de última hora", conclui o Professor Jonuel Gonçalves. "Algumas dessas operações podem ser consideradas tão agressivas que vários dos signatários do acordo dirão que não estão implicados mais nele."

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