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Vale a pena prolongar a vida útil de Angra 1 e outras usinas nucleares?

Em janeiro, o governo da Eslovênia anunciou a concessão de licença ambiental para estender a vida útil da usina nuclear de Krsko por mais 20 anos, ou seja, até 2043. De tecnologia Westinghouse, ela é "gêmea" da brasileira Angra 1, que tem programa de extensão até 2044. A Sputnik explica o motivo do prolongamento da vida útil dos reatores nucleares.
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Diversos outros países anunciaram a extensão da vida útil de suas usinas nucleares. Somente nos Estados Unidos, mais de 70 sedes tiveram esse prolongamento.
Na prática, porém, vale a pena essa continuidade?
Aquilino Senra, doutor em ciências da engenharia nuclear e professor da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que a extensão compensa.
Ele aponta que quando se fez o projeto das 440 usinas nucleares operantes no mundo, uma margem de tempo sobre o funcionamento foi calculada por engenheiros nucleares para longa duração.
Para exemplificar a engrenagem de uma usina, o professor usa a analogia de um carro composto por diversas peças. O "motor", no caso da usina, seria o reator nuclear.

"O reator tem fissões nucleares, que, quando ocorrem, emitem nêutrons e radiações. Há um vaso de pressão no entorno do reator nuclear. Esse vaso tem como objetivo ser uma barreira de radioatividade. Esses nêutrons e radiações vão se chocando na parede do vaso, que vai se desgastando ao longo do tempo", explica Senra. "Quando engenheiros mecânicos fizeram esse cálculo, baseados em estudos e verificações, estabeleceram o tempo de vida útil desses vasos em 40 anos. Só que, ao longo desse tempo, foram feitas medidas da superfície desses vasos, e constatou-se que o desgaste não era tão grande quanto previsto", prossegue.

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A partir daí, engenheiros calculam a extensão de ao menos 20 anos da vida útil das usinas de energia atômica "com margem de tranquilidade", diz o professor.
No projeto também existe a instrumentalização interna e externa da tecnologia baseada em engenharia eletrônica, que evolui muito diariamente.
Para ilustrar, o professor retoma o exemplo de veículos automotivos, cujas funcionalidades avançam a cada versão de carro lançada.

"Da mesma forma que a eletrônica evolui para um carro, ela evolui para uma usina nuclear. Se há a possibilidade de estender a vida útil, é mais lucrativo e mais vantajoso do que fazer uma nova", aponta.

A tendência se relaciona ao crescente interesse mundial por energia limpa.
Isso porque uma das maiores preocupações atuais é o aquecimento global, que reduz a vida no planeta. Devido a isso, há a necessidade de transformação da matriz energética.
Senra diz que a energia nuclear tem a mais baixa emissão de gases do efeito estufa, de acordo com estudos anteriores feitos com fontes energéticas alternativas aos combustíveis fósseis.
Mesmo painéis solares, por exemplo, têm emissão de carbono durante a fabricação desses artefatos.
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Nesse contexto, o professor da UFRJ diz que até as petrolíferas estão cogitando o investimento em energia nuclear.
Projetos para desenvolvimento de reatores nucleares de pequeno porte, que podem ser usados de maneira descentralizada do grid de energia elétrica, também estão em andamento.

"O bilionário Bill Gates tem um projeto de construção de reatores nucleares de pequeno porte para usar em pequenos navios mercantes", exemplifica.

Para a extensão da vida útil da usina Angra 1, a Eletrobras obteve um financiamento de R$ 22,2 milhões com parceiros internacionais.
O professor não vê problemas quanto a essa questão, ressaltando que a própria usina Angra 1 foi fruto de um investimento de 40 anos que já está pago.

"Essa usina, com pequenas modificações e reprogramação de alguns componentes, pode reoperar por mais 20 anos. Ela se paga sobremaneira nos próximos 20 anos", conclui.

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