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Soft power brasileiro: Carnaval pode ajudar Lula na reinserção internacional do Brasil?

O Carnaval brasileiro, em suas diversas formas de manifestação, faz parte da identidade cultural do país e tem notória fama internacional. Em um momento em que o Brasil passa por desafios para reconstruir sua imagem no exterior, a potência cultural dos festejos carnavalescos chama atenção como um possível elemento de soft power brasileiro.
Sputnik
Das escolas de samba aos trios elétricos, passando pelos blocos e grupos de rua, o Carnaval brasileiro é visado internacionalmente por ser uma das maiores festas populares do planeta. Não são poucos os casos de países que buscaram nas escolas de samba brasileiras uma forma de projeção de sua cultura e de pautas que influenciam o cenário internacional.
Dado esse reconhecimento, um especialista ouvido pela Sputnik Brasil acredita que é possível que a festa, que oficialmente é realizada nos quatro dias anteriores à quarta-feira de cinzas, seja explorada pela diplomacia brasileira no projeto de reinserção internacional do Brasil. Uma das tarefas assumidas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a de mostrar para o mundo que "o Brasil voltou" e o Carnaval poderia ser um dos cartões de visita nessa empreitada — ou muito mais que isso.
Marcello Cappucci, professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), destaca que a diplomacia cultural não é um movimento novo e tem muito a ver com estratégias de propaganda conduzidas por países para amplificar sua projeção internacional. A cultura, então, se apresenta como elemento de soft power.

"Existe uma percepção no Itamaraty e em outras áreas do governo brasileiro, não apenas da era Lula, de que nós temos poucos recursos de hard power (capacidade de fazer com que os outros façam e sigam seus interesses, de obrigar e impor ao outro). O Brasil não tem essa capacidade; por mais que as nossas Forças Armadas tenham sua reputação no cenário internacional, a gente não tem esses recursos. Diferentemente de China, Índia e Rússia, que estão no BRICS e têm um arsenal e uma série de recursos de hard power, o Brasil, infelizmente ou felizmente, não os tem."

A ideia, segundo Cappucci, é de, "por meio da cultura, por meio do esporte, por meio da persuasão, influenciar, seduzir os outros países". O especialista reforça que esses elementos podem ser trunfos para o Brasil após, segundo ele, perdas que o país teve no governo de Jair Bolsonaro.
"No último governo, o Brasil se torna um pária dentro do sistema internacional; ficamos completamente isolados. A imagem de país pacifico, amigável e multicultural se perde. Os benefícios que isso trazia em termos de soft power também. Isso se perdeu no governo passado. Nós não só ficamos isolados, mas desconstruimos uma imagem que construímos ao longo de anos", lamenta o especialista.
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Carnaval é muito mais do que um cartão de visitas

Na opinião de Cappucci, enquanto Bolsonaro deixou o país sem soft power e sem hard power, há uma reversão desse quadro com Lula. "É muito animador quando a gente vê o novo governo sendo recebido com pompa, com expectativa nos fóruns internacionais", apontou. E, para essa retomada do soft power brasileiro, o Carnaval pode ter um papel importante.
"O Carnaval, como manifestação socioeconômica e política brasileira, pode tanto espelhar quanto influenciar. Funciona como a própria televisão. Ele tanto mostra a sociedade como vai influenciar a sociedade. [...] O Carnaval precisa ser entendido como um elemento identitário, não tem como negar que faz parte da identidade brasileira. Em qualquer forma que ele tenha, seja no frevo, no axé music, no samba, no Carnaval do Rio", aponta.

"Quando a gente vê os palcos mais institucionalizados, como os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, que são televisionados para o Brasil inteiro, a gente percebe que existe ali, além da questão identitária, uma zona para o exercício político. Se analisar o Carnaval dos últimos anos, você vai ver que pautas muito importantes nacionais e internacionais estão presentes. Então há duas formas de olhar para isso: pensar como o governo pode usar o Carnaval como cartão de visita, como forma de projetar o Brasil, mas também pode ter a análise do Carnaval influenciando esse olhar internacional a partir das pautas que estão sendo discutidas no Carnaval", destaca Cappucci.

O Sambódromo da Marquês de Sapucaí, palco das escolas de samba do Rio de Janeiro, durante o Carnaval. Rio de Janeiro (RJ), 15 de janeiro de 2023
Como exemplo desse fenômeno, o especialista dá ênfase à grande quantidade de enredos com temáticas de religiões de matriz africana no Carnaval de 2022 — inclusive a campeã do desfile carioca desse ano, a Acadêmicos do Grande Rio, trouxe como enredo o orixá Exu — e a temas relacionados ao Nordeste no de 2023 — por parte das escolas Imperatriz Leopoldinense, Estação Primeira de Mangueira, Unidos da Tijuca e Mocidade Independente de Padre Miguel. Para o especialista, isso deve ser entendido como uma resposta política à ofensiva da extrema-direita alinhada com igrejas neopentecostais contra a umbanda e o candomblé e também uma reação ao preconceito contra a região Nordeste.
Além disso, um dos exemplos de diálogo entre o Carnaval e a política internacional é o desfile de 2006 da Unidos de Vila Isabel, que exaltou a integração latino-americana, em um enredo que teve apoio da petrolífera venezuelana PDVSA justamente em um momento em que os líderes políticos da região discutiam um estreitamento de laços. Dois anos antes, os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, Néstor Kirchner, da Argentina, e Lula capitaneavam o surgimento do embrião da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que seria oficializada em 2008. Com um refrão fazendo referência a Simón Bolívar, a Vila Isabel foi campeã naquele ano.
Desfile da Unidos de Vila Isabel no Carnaval carioca de 2006 exaltou a latinidade. Rio de Janeiro, 27 de fevereiro de 2006

Carnaval pauta a política

O professor da PUC-Rio menciona a teoria da virada estética, de Roland Bleiker, e aponta que "a arte consegue abrir espaço político porque ela descola a ideia de mimese — você não precisa reproduzir a realidade para passar uma mensagem; por meio da subjetividade você consegue passar até melhor uma mensagem".
"A fantasia, o carro alegórico, o enredo e a música passam uma mensagem. Se você parar para pensar, tem sambas históricos, como 'Liberdade! Liberdade! Abra as asas sobre nós' [Imperatriz, 1989], o 'Valeu, Zumbi' de 'Kizomba' [Vila Isabel, 1988], que ficam no imaginário popular e que remetem [a uma mensagem]. E cada vez mais os carnavalescos se baseiam em uma nova historiografia, e é de uma riqueza enorme".

"[O que acontece no Sambódromo] tem uma repercussão internacional muito forte. O Brasil pode tranquilamente utilizar o Carnaval como soft power, para tratar de assuntos bastante difíceis e bastante polêmicos, como a questão do racismo", aponta Cappucci, mencionando o enredo da Unidos do Viradouro de 2023, que trata sobre a primeira mulher negra a publicar um livro no Brasil, Rosa Maria Egipcíaca. "Eu acho que a gente vai voltar a praticar isso. Ter a possibilidade da cultura como instrumento da diplomacia cultural."

Os desfiles do Grupo Especial das escolas de samba do Rio de Janeiro serão no domingo e na segunda-feira de Carnaval e devem contar com a presença do presidente Lula e da ministra da Cultura, Margareth Menezes. Reconhecida pela sua atuação no Carnaval de Salvador, Menezes será uma das personagens do enredo da Mangueira, que tratará de 'As Áfricas que a Bahia canta', e deve desfilar na escola de samba.
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mangueira, Matheus Olivério e Cintya Santos, se apresenta durante ensaio técnico no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Rio de Janeiro, 29 de janeiro de 2023
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