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Censo revelará taxa inédita em 150 anos no Brasil e resposta está nas mulheres, dizem analistas

Especialistas convidados do podcast Jabuticaba Sem Caroço, da Sputnik Brasil, explicam vertiginosa desaceleração do crescimento populacional no país, conforme resultados prévios divulgados pelo IBGE, e apontam impactos sobre o futuro da sociedade brasileira.
Sputnik
O Censo 2022 ainda está em andamento, mas os pesquisadores já podem afirmar que o país registrou o menor crescimento populacional da história.
De acordo com a prévia do levantamento, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil chegou à marca de 208 milhões de habitantes, crescendo apenas, em média, 0,7% ao ano desde o último recenseamento, em 2010. Esse é o menor aumento populacional registrado desde o início da série histórica, em 1872.
A contagem da população brasileira sempre foi feita uma vez a cada dez anos, devido ao tamanho da pesquisa e dos recursos a ela alocados. Desta vez, porém, o Censo está atrasado em quase três anos, em razão das restrições da pandemia, em 2020, e do corte de verba, em 2021, por parte do governo federal.
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No 202º episódio do podcast Jabuticaba Sem Caroço, da Sputnik Brasil, as apresentadoras Bárbara Pereira e Francini Augusto entrevistaram Ricardo Ojima, doutor em demografia e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e Marcia Sena, especialista em qualidade de vida na terceira idade e longevidade ativa, para entender melhor o atual cenário brasileiro.
Segundo Ojima, os primeiros dados confirmam as projeções dos especialistas, que apontavam um ritmo de crescimento menor na última década em comparação com os anos 2000, em um processo fruto da redução dos níveis de fecundidade da população ao longo dos últimos anos.
O professor explica que, nos últimos 50 anos, as mulheres passaram a ter maior acesso à educação e, consequentemente, a mais informações sobre métodos contraceptivos. Além disso, as mulheres se inseriram no mercado de trabalho, passando a planejar suas trajetórias profissionais antes de buscarem ter filhos.

"Cada vez mais as mulheres assumem seu 'empoderamento' para poder decidir o que elas querem, quanto elas querem ter, e por aí vai. Então é um conjunto, é tudo isso junto que contribui com essas mudanças que levam a essa redução do número de nascimentos", indicou.

Com a queda da natalidade brasileira, um dado indica que, em um futuro breve, o país pode verificar a redução da população, como já ocorre em diversos países desenvolvidos. Isso porque a taxa de reposição brasileira vem caindo consistentemente e já está na casa de 1,60 filho por mulher.
De acordo com o IBGE, para um país conseguir manter a quantidade de sua população, precisa ter uma taxa de 2,1 filhos por mulher. Dessa forma, duas crianças substituem os pais, com a fração 0,1 sendo necessária para compensar indivíduos que morrem antes de atingir a idade reprodutiva.

"Na década de 1970, o número médio de filhos que uma mulher tinha ao completar o seu ciclo reprodutivo era na faixa de seis filhos. Hoje esse número já está bem abaixo de dois", comparou.

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Esse novo quadro impactará, segundo o especialista, na prioridade das políticas públicas do país nas próximas décadas. Se hoje a maior parte da população está concentrada em faixas etárias ativas, em alguns anos aumentará o percentual acima dos 65 anos.

"Isso vai fazer com que se mudem prioridades e investimentos em políticas públicas. Os gastos com educação vão diminuindo, e mais investimentos passam a ser feitos nas áreas de saúde e previdência, em que vai se concentrar boa parte da população brasileira em um futuro não muito distante. E os gastos per capita com crianças são muito menores do que com a população idosa. Então haverá consequências importantes do ponto de vista de investimentos e políticas sociais para essas parcelas da população", advertiu.

O professor reforça, no entanto, a necessidade ainda latente de investimentos em educação, para melhorar a formação de base brasileira e, por consequência, garantir profissionais mais qualificados para o mercado de trabalho no futuro.

"As crianças de hoje já são poucas, e, conforme vão envelhecendo e se tornando adultos, se o investimento em educação não for bem feito, a quantidade de idosos lá na frente será uma carga muito grande para a população adulta com baixa produtividade", explicou.

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Brasil não se preparou para envelhecer, diz especialista

Marcia Sena, especialista em qualidade de vida na terceira idade e longevidade ativa, afirma que o Brasil não está se preparando para ser um país mais envelhecido.
Segundo ela, o processo de envelhecimento da população brasileira foi muito mais acelerado do que em outros países e continentes, como a Europa.
"Esse processo aconteceu de maneira muito rápida no Brasil. Demorou para cair a ficha de que o Brasil não é mais só o país dos jovens. A gente tinha e ainda tem um culto à juventude, quando na verdade já não somos tão jovens assim", destacou.
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Sena lembra que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o envelhecimento ativo e saudável passa por quatro pilares primordiais: o estímulo mental e cognitivo, como jogos e ativação de memórias; a realização de atividade física de preferência; a socialização, com um ciclo de amigos e um bom relacionamento com a família; e a busca por novos aprendizados, por meio de cursos e estudos.
Além disso, a especialista lembra que não se pode deixar de lado uma alimentação balanceada e saudável.
"O estímulo social é fundamental. É fundamental para envelhecer bem ter amigos e uma rede de apoio, uma boa convivência com a família. Sair, dançar, ir ao cinema, ao shopping, à praia... Tudo isso é importante manter de hoje até o dia que você morrer", afirmou.
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