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De adversário a vice, qual a importância de Alckmin para transição e governabilidade de Lula?

Geraldo Alckmin (PSB) celebra nesta segunda-feira (7) seu primeiro aniversário como vice-presidente eleito do Brasil. Aos 70 anos, Alckmin tem a missão de coordenar a transição do governo de Jair Bolsonaro (PL) para o de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e deve ser figura importante para a governabilidade.
Sputnik
Enquanto celebrava seus 69 anos, em novembro de 2021, Alckmin ainda integrava o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), do qual foi um dos fundadores, em 1988, e desconversava quando se falava da possibilidade de integrar a chapa de Lula nas eleições de 2022. Em menos de um mês, o tucano histórico anunciou sua desfiliação do partido.
Em março do presente ano, veio a filiação ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). No mês seguinte, foi anunciado por Lula como seu companheiro de chapa na pré-candidatura presidencial que sairia vitoriosa.
A guinada de Alckmin foi influenciada pela conturbada conjuntura política brasileira. Segundo o sociólogo Wescrey Portes, pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a aliança Lula–Alckmin fez parte de uma estratégia de "frente ampla democrática" para derrotar Bolsonaro nas urnas — e deu certo.

"Indicar o Alckmin de vice vinha se costurando como uma tentativa de se consolidar uma frente ampla democrática que reunisse os setores que estavam dentro desse último período, especialmente após a vitória de Bolsonaro, esforçando-se para construir uma defesa intransigente da democracia e das instituições do Estado democrático de direito. É o principal elemento que consolida essa frente do Lula com Alckmin de vice", aponta Portes.

O sociólogo destaca que a composição de chapa representa "os principais setores que fizeram parte da reconstrução da democracia brasileira na década de 1980 e que ainda são figuras importantes para a democracia brasileira neste contexto". Mas ele aponta que, além do simbolismo, Alckmin foi bastante atuante na campanha e ajudou na vitória da chapa encabeçada por Lula.
Geraldo Alckmin discursa durante ato de lançamento da pré-candidatura de Lula à Presidência da República, no Rio de Janeiro (RJ), em 7 de julho de 2022

"O Alckmin teve uma importância fundamental enquanto político da envergadura que tem, pela relação com São Paulo — um estado que é muito difícil para o PT, muito difícil para o antibolsonarismo. [...] Além de ser uma presença simbólica, tem uma relação política mais pragmática, das relações com os prefeitos, e ele se dedicou muito, participou da campanha, esteve nos atos de campanha, fez vídeos."

O desempenho da chapa Lula–Alckmin em São Paulo foi muito superior em relação à eleição de 2018, quando o então candidato petista, Fernando Haddad, foi derrotado por Bolsonaro. O PT ganhou 4,3 milhões de votos entre um pleito e outro no estado, maior colégio eleitoral do país. Em uma eleição apertada como a deste ano — com uma diferença de 2,1 milhões de votos — essa recuperação pode ter sido decisiva.

Alckmin fez um giro à esquerda?

Pelas nomenclaturas partidárias, Alckmin deixou de ser "tucano" para ser "socialista", adjetivo que passou longe das três experiências do agora vice-presidente eleito como governador de São Paulo (2003–2006 e 2011–2018). O candidato presidencial que usava o antipetismo como estratégia eleitoral em 2018 passou a pedir voto no 13 do PT. A saída do PSDB, no entanto, não se deu por puro cálculo, mas por embates internos e por uma cobrança de maior enfrentamento ao bolsonarismo dos chamados tucanos históricos.
Em certo momento da campanha, ele gravou um vídeo dizendo que fora iludido pela Operação Lava Jato quando deu uma declaração em 2018 dizendo que o PT queria "voltar à cena do crime" com a candidatura de Haddad à Presidência naquele pleito. Em gravação usada na propaganda eleitoral deste ano, Alckmin diz que Lula foi preso injustamente após um julgamento que foi anulado após ser reconhecido como parcial pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Geraldo Alckmin discursa durante comício com evangélicos em São Gonçalo (RJ), em 9 de setembro de 2022
Isso representa um giro à esquerda? Alckmin de fato virou "socialista"? Para Portes, ainda é cedo para responder a essa pergunta porque o governo ainda não começou e as políticas públicas não começaram a ser implementadas. No entanto é certo que Alckmin entrou em um outro campo político.

"É difícil dizer se um giro à esquerda do Alckmin aconteceu ou não. Independentemente disso, acho que se construiu uma coalizão democrática — nos seus vários significados — muito grande. É preciso ver como vai se construir o debate econômico, porque é aí que talvez os pontos de divergência sejam mais fundamentais, dos projetos em que ambos antagonizaram. [...] O fato é que ele saiu de um partido que antagonizava com o PT e foi para um partido que sempre teve uma relação mais próxima nacionalmente ao PT. De fato é um giro, não sei se um giro à esquerda", aponta.

Transição e governo

Se Alckmin foi importante para facilitar a entrada de Lula em São Paulo, ele também está atuando para garantir uma transição estável. Na quinta-feira (3), Bolsonaro recebeu o vice-presidente eleito, coordenador da equipe de transição de Lula, em uma reunião em que foi vetada a presença de petistas.
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Para Portes, isso indica um reconhecimento da figura política de Alckmin e sinaliza que ele terá um papel de destaque no próximo governo.

"Dentro da política, ele é uma figura bem quista. O Alckmin tem uma atuação política de longa data e está cumprindo um papel fundamental nesse processo de transição. [...] Ele ocupar esse papel na liderança da transição sinaliza que ele terá um papel destacado dentro do governo."

Em uma das primeiras entrevistas em que falou publicamente sobre a possibilidade de Alckmin ser seu vice, em coletiva a veículos de mídia independente, Lula dizia que "ganhar as eleições é mais fácil do que governar" e que, por isso, precisaria de uma frente ampla para garantir governabilidade. Após uma eleição tão acirrada, o desafio aumenta.
O pesquisador do IESP acredita que Alckmin vai ser importante para o diálogo do governo com o Congresso, independentemente se vai seguir apenas como vice ou se vai acumular funções ministeriais, conforme tem sido especulado pela mídia.

"A ver onde será esse papel, apenas como vice-presidente mas com destaque maior nas articulações do governo ou se vai ocupar um ministério com um papel mais político, de maior relação com o Congresso, como Casa Civil, Secretaria de Governo", aponta o sociólogo.

O analista destaca que será preciso uma união de forças para "reconstruir o Estado brasileiro, a democracia e um conjunto de elementos que vão precisar ser reforçados [...], a reconstrução de um conjunto de políticas públicas que parece estar no horizonte do governo Lula, como o novo Bolsa Família, a aceleração do processo de obras".
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