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Brasil 200 anos: do grito no Ipiranga à polarização das eleições neste ano, como o país aconteceu?

Hoje (7) o Dia da Independência brasileira conta com um motivo ainda mais especial a ser celebrado: o seu bicentenário! Do grito de independência às margens do Ipiranga às tensões das eleições deste ano, o país tem o que comemorar, o que não repetir e todo um futuro pela frente.
Sputnik
A data em que se comemora a Independência do Brasil está na memória de muitos brasileiros, não só por marcar um evento tão importante, mas também por envolver a população de grandes e pequenas cidades em festividades.
"O Desfile do Dia 7 de setembro", como geralmente é chamado o evento cívico, acontece em diversos municípios englobando escolas, Exército, autoridades, ginastas, comércio, ou seja, é possível testemunharmos uma forte conexão entre a população e o país nessa data.
Famílias e crianças assistem ao Desfile do Dia 7 de setembro em Brasília (foto de arquivo)
Essa ligação também aconteceu com Dom Pedro I, visto que mesmo tendo nascido em 1798 em Portugal, o imperador responsável pela independência brasileira chegou à "Terra Brasilis" em 1808 com a Família Real e "cresceu no país, foi praticamente criado aqui e desenvolveu uma estreita relação com o Brasil ao começar a ter contato com grupos políticos, em destaque os da Câmara do Rio de Janeiro", conta Vantuil Pereira, professor de História da UFRJ entrevistado pela Sputnik Brasil.
A vinda da Família Real também marca um momento histórico, pois foi a primeira vez que "uma corte europeia, que a capital de um império, estava sediada na América".
"Nas rusgas prévias da Independência, Dom Pedro era a figura que centralizava a política e os interesses enraizados no Brasil, interesses esses de brasileiros e dos chamados 'brasileiros adotivos', que foram portugueses que passaram a ter seus objetivos mais voltados ao Rio de Janeiro […] sendo assim, ele reuniu importantes elementos para ser a figura central da independência", explica o professor.
Portanto, a autonomia brasileira que chega no ano de 1822, é fruto de um contexto que engloba dois grupos: de um lado, a elite política brasileira – representada por grandes proprietários de terra, senhores de escravos e comerciantes – que se aproximou de Dom Pedro para buscar seus interesses, e de outro, uma grande participação popular, especialmente dos estados de Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco e Pará, diz Pereira, o que descaracteriza a teoria de alguns de que o movimento de emancipação de Portugal "foi elitista".
preciso relermos o processo de independência e fazer com que ele leve em conta a participação popular que buscava a liberdade", ressalta.
Quadro 'Independência ou Morte' de Pedro Américo, que caracteriza o grito de Dom Pedro às margens do Ipiranga, exposto no Salão Nobre do Museu do Ipiranga em São Paulo, 1º de setembro de 2022
Contudo, todo a ação em prol da liberdade não aconteceu apenas com Dom Pedro chegando às margens do riacho Ipiranga e proclamando "independência ou morte", como conta a história – episódio que, segundo alguns historiadores, passou despercebido na época e só várias décadas mais tarde é que veio a ser considerado como o momento-chave da independência do Brasil.
A adesão à causa não foi unânime e houve tentativas de restauração do domínio português, assim como diversas regiões tentaram separar-se do Brasil e formar repúblicas autônomas, visto que parte do movimento independentista era republicano e não aceitava um país monárquico.
"[...] Sobretudo nos estados do Pará, Pernambuco, Bahia e Maranhão aconteceram lutas sangrentas em torno da independência, inclusive a independência da Bahia só aconteceu em julho de 1823, por exemplo. O que não podemos é querer comparar o processo de independência brasileiro à Revolução Francesa, se fizermos isso parece que não aconteceu nada, mas houve a morte de portugueses e brasileiros durante o processo sim."
Desfile Cívico por ocasião da Independência do Brasil (foto de arquivo)

Participação do Reino Unido

O professor relembra que, desde meados do século XVIII, Portugal foi um país "tutelado pelo Reino Unido", principalmente após a revolução na França, "tanto que os britânicos financiaram e protegeram a vinda de Dom João VI e da Família Real para o Brasil [em 1808]", entretanto, Londres não focou na independência da colônia brasileira.

"Incialmente, o Reino Unido não tinha grande interesse na ruptura Portugal-Brasil, mas com o processo de independência [...] a partir de 1824, começa-se a defender a autonomia brasileira, e não só a defender como também os britânicos emprestam ao Brasil o dinheiro necessário para sua emancipação."

Outro ponto que levou o apoio britânico à independência brasileira foi o fim do tratado de comércio entre Lisboa e Londres, "que vinha sendo protelado por Dom João" e, sendo assim, o Reino Unido viu a oportunidade de fazer um acordo diretamente com o Brasil, o que seria bastante vantajoso para a terra da rainha.

Ao mesmo tempo, os britânicos pressionaram o país sul-americano para abolir a escravidão, relata o professor.
Busto de Dom Pedro I na Exposição do Bicentenário no Planalto, 5 de setembro de 2022
Paralelamente, houve um rumor no Brasil de que Portugal, após a independência, poderia enviar uma grande missão para tentar reconquistar o território brasileiro, tal fato também ajudou para a aproximação entre Brasil e Reino Unido, afirma Pereira.
No entanto, o professor lembra que em meados de 1825, Portugal se encontrava em uma situação financeira muito crítica para financiar uma missão de reconquista.
"Embora tivesse interesse de alguns setores lusitanos em tentar fazer uma missão dessa envergadura, esbarrava-se em duas dificuldades: a questão financeira e a posição britânica que vinha se alterando e não estava mais apoiando o Estado português para tentar uma reconquista."

Bicentenário da Independência

Neste ano do bicentenário, diversos eventos para hoje (7), além de autoridades internacionais, são esperados.
No dia 22 de agosto, o coração de Dom Pedro I chegou ao Brasil para as comemorações. O órgão, que está conservado há 187 anos, fica guardado em um vaso de vidro com formol em uma urna dentro de um cofre na Irmandade da Lapa, na cidade portuguesa do Porto. No Brasil, o coração foi para o Palácio do Itamaraty, onde ficará até o dia 9 de setembro.
Moedas comemorativas na Exposição do Bicentenário da Independência do Brasil no Palácio do Planalto, 5 de setembro de 2022
"A relação entre Brasil e Portugal, a partir do início do século XX, é uma relação de amizade e fraternidade, e a vinda do coração de Dom Pedro I para comemoração dos 200 anos representa esse movimento", analisa Pereira.
Além do evento citado, o Museu do Ipiranga, em São Paulo, idealizado para marcar o local onde o imperador deu "o grito que fundou o Brasil independente" será reaberto ao público no dia 8 de setembro após ficar nove anos fechado e passar por uma reforma de R$ 235 milhões.
Os presidentes de Portugal, Guiné-Bissau e Cabo Verde também estarão no país para as comemorações, segundo informou o Itamaraty citado pela Folha de São Paulo.
São Paulo realiza reparativos para desfiles da Independência no 7 de setembro na região do Ipiranga, zona Sul, 6 de setembro 2022
O tradicional desfile cívico no Distrito Federal também acontecerá e, de acordo com a mídia, serão mais de 5.700 pessoas desfilando a pé, em viaturas ou a cavalo.
No entanto, neste ano, por conta das tensões políticas envolvendo as eleições que se aproximam, mesmo sendo a data emblemática dos 200 anos, o foco está concentrado na segurança do evento, se haverá protestos violentos e até mesmo como será postura do presidente, Jair Bolsonaro (PL), em seus discursos.
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