Panorama internacional

Toda a União Europeia tem inveja deste país: não precisa do gás russo

Há muito tempo que Portugal tem estado isolado das redes energéticas europeias e até ganhou a reputação de ser uma "ilha energética", diz The New York Times. Contudo, agora o gás russo mantém a Europa como refém, e nesse contexto a península ibérica tem muito a oferecer.
Sputnik

"Tendo estados isolados das redes continentais há muito tempo, Portugal e a Espanha construíram um sistema baseado nas importações de gás natural liquefeito e fontes de energia alternativas – a inveja de outros países da União Europeia", diz a publicação.

Segundo a colunista Patricia Cohen, agora, quando a Rússia tem de cortar o fornecimento do seu gás natural para os países da União Europeia, que se opôs às suas ações na Ucrânia, Portugal bem pode desempenhar um papel importante na superação da crise energética na região.
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Em Portugal não há nem minas de carvão, nem poços de petróleo, nem depósitos de gás. Devido ao isolamento prolongado das redes energéticas europeias, Portugal até ganhou reputação de ser uma "ilha energética". Ao não ter acesso ao fornecimento do gás barato russo, que antes alimentava a maior parte da Europa, Portugal e a Espanha tiveram que investir em fontes de energia alternativas – energia solar, eólica e hidrelétrica. Além disso, os países desenvolveram um mecanismo complexo que agora lhes permite importar gás do norte e oeste da África, dos EUA e outros países.
Na quarta-feira (31), o gigante energético russo Gazprom cortou o fornecimento de gás natural, que antes já havia sido limitado, através do gasoduto Nord Stream (Corrente do Norte). Visto que hoje o preço do gás supera em cerca de dez vezes o preço do ano passado, a União Europeia convocou uma reunião de emergência dos ministros da Energia. A reunião está prevista para a semana que vem.

"Enquanto Bruxelas está tentando encontrar métodos para superar esta crise, a possibilidade de fornecer mais gás à Europa através de Portugal e Espanha atrai cada vez mais atenção", salienta a publicação.

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Patricia Cohen sublinha que Portugal e Espanha se tornaram dos primeiros países europeus a construir terminais especiais necessários para receber navios com o gás natural liquefeito e transformá-lo em vapor que pode ser bombeado para casas e empresas.

"Este gás natural liquefeito [...] era mais caro do que o gás que a maioria dos países europeus recebia através dos gasodutos da Rússia. Mas agora, quando a Alemanha, Itália, Finlândia e outros países europeus estão procurando desesperadamente alternativas ao gás russo que possam ser transportadas por mar dos EUA, do Norte da África e do Oriente Médio, essa desvantagem se converteu em uma vantagem", explica a autora.

O terminal português em Sines está situado mais próximo aos Estados Unidos e ao canal do Panamá do que os outros terminais europeus. Foi o primeiro porto europeu a receber um carregamento de GNL dos Estados Unidos em 2016. Antes do início dos combates na Ucrânia, Washington classificou Sines como um portão de importância estratégica para o fornecimento de energia a outros países europeus.
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A Espanha também possui uma rede vasta de gasodutos, através dos quais é transportado o gás da Argélia e Nigéria, além de instalações de armazenamento espaçosas.
Assim, nesta semana o chanceler alemão Olaf Scholz realizou uma reunião com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, em que os líderes europeus discutiram os preços da energia exorbitantes na Europa.
"A Alemanha, que ao longo de um longo período conectou o seu futuro energético à Rússia, se tornou um apoiante muito ativo da criação de uma rede energética através da França", diz a colunista.
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Nesse contexto, é a França que tem se manifestado contra a construção de um novo gasoduto que passaria por seu território. Paris deseja defender os seus próprios produtores e sua poderosa energia atômica da concorrência. Além disso, Portugal e a Espanha também não partilham de algumas ideias expressas por Bruxelas.
Portugal e a Espanha foram dos poucos países da Europa que se opuseram à medida de reduzir o consumo do gás natural em 15%, que a Comissão Europeia propôs introduzir em julho. Logo em seguida, o ministro da Energia espanhol criticou firmemente os países que "viviam acima das suas possibilidades do ponto de vista energético".

"O ministro da Energia português salientou que a Europa está pedindo para Portugal e a Espanha partilharem a dor em caso de déficit, enquanto anteriormente o bloco não quis investir na construção de uma rede energética comum que permitisse reduzir as despesas da península ibérica. Então, por que é que agora os seus habitantes têm de sofrer por causa do aumento dos preços?"

No final das contas, os membros da União Europeia conseguiram coordenar uma escala de redução voluntária, mas, mesmo assim, o episódio demonstrou o quão difícil pode ser o processo de elaboração de decisões no bloco.
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