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Prós e contras: Brasil deve aumentar produção de petróleo após pressão dos EUA?

Especialistas apontam vantagens e desvantagens de atender pedido do governo norte-americano de ampliar produção de petróleo para aumentar oferta global devido ao bloqueio ocidental aos combustíveis russos.
Sputnik
O Brasil já tem uma estratégia de longo prazo traçada para ampliar sua produção de petróleo.
A estimativa do Ministério de Minas e Energia é um crescimento de 70% ao longo dos próximos dez anos, com o país atingindo o patamar de 5,3 milhões de barris de petróleo por dia (bpd) no início da década de 2030.
Atualmente o Brasil produz cerca de 3 milhões de barris por dia. Para ajudar a estabilizar os preços internacionais, o país estabeleceu a meta de 3,3 milhões de bpd ao fim deste ano, com um aumento de 10%.
Em entrevista à agência Reuters na última quarta-feira (20), o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, revelou que os Estados Unidos já procuraram o Brasil duas vezes desde o início da operação russa na Ucrânia. O assunto foi o papel brasileiro na manutenção dos preços globais do petróleo.

"Já tive duas reuniões com a secretária de Energia [Jennifer] Granholm, e temos conversado sobre isso, a importância de estabilizar a oferta e a demanda de petróleo e gás no mundo", disse Albuquerque.

Ministro de Minas e Energia do Brasil, Bento Albuquerque.
Porém até que ponto atender às demandas dos EUA em meio ao cerco econômico contra a Rússia será favorável para o Brasil, para sua população e para a principal empresa nacional no ramo, a Petrobras?
Em sua entrevista, o próprio ministro admitiu que "aumentar a produção não é como um interruptor que você pode ligar".
Segundo o professor Marco Rocha, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-Unicamp), do ponto de vista da Petrobras e do país, a expansão da oferta no curto prazo poderia ser justificada pelo aumento do preço, "mas foge do cronograma da própria empresa".

"Seria atender um pedido político dos EUA. Ou seja, seria um posicionamento geopolítico em relação ao que está acontecendo, um gesto mais bilateral entre Brasil e EUA do que algo do interesse da empresa", afirmou Rocha à Sputnik Brasil.

O especialista ressalta que a Petrobras responde por cerca de 70% da produção doméstica de petróleo. Segundo ele, dentro dessa fatia, de fato há condições de ampliação da oferta no curto prazo com a aceleração da extração de matéria-prima do pré-sal. Porém ele explica que essa "não seria uma operação tão simples".
"Teria que se preparar para isso, manejar recursos e identificar a viabilidade da expansão de oferta no curto prazo", indicou.
Logotipo da Petrobras no Aeroporto Internacional de Cabo Frio.
O professor da Unicamp destaca, contudo, que uma mudança de rota da Petrobras para suprir acordos bilaterais entre o Brasil e outra nação "teria muito pouco impacto e exibiria contradição na atuação da empresa".

"Modificaria o planejamento da empresa por uma questão política bilateral, a partir do pedido de outro Estado. Causaria constrangimento, inclusive sobre a visão que o governo profetiza sobre a própria empresa. Seria parte de um esforço coordenado que envolveria tomada de posição geopolítica com muito pouco interesse para a população como um todo e também para a empresa", disse.

'Abordagem americana é típica para países como o Brasil'

Juliana Inhasz, professora e coordenadora do curso de graduação em economia do Insper, classifica de "remotas" as possibilidades de o Brasil aumentar a produção no curto prazo.
A especialista aponta que, para isso, o país precisaria primeiro investir mais na extração do petróleo antes de acelerar a produção.

"Não é um petróleo de grande qualidade [do pré-sal]. Precisa de técnica e maquinário mais arrojado. Seria certamente difícil aumentar a produção em um curto espaço de tempo", avaliou.

Segundo Inhasz, "a abordagem americana é muito típica para países como o Brasil, que sofre grande pressão de outras economias para se manter em desenvolvimento".

"A Petrobras tem capacidade, mas é muito limitada. Não vejo como poderia em um curto prazo fazer isso. Até há o interesse em aumentar a produção, mas não é um produto com tanta vantagem. Talvez para o Brasil e para a própria Petrobras não seja tão vantajoso aumentar a produção porque os custos podem ser muito maiores que os benefícios", afirmou.

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