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Bolsonaro na Hungria: quais os benefícios diplomáticos e econômicos para o Brasil?

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil analisaram o encontro do presidente Jair Bolsonaro com Viktor Orban, primeiro-ministro húngaro, logo após viagem a Moscou.
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"Brasil e Hungria nunca estiveram tão alinhados em praticamente todos os aspectos". A afirmação é do presidente Jair Bolsonaro após o encontro com o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, nesta quinta-feira (17).

"[A Hungria é um país] pequeno se levarmos em conta as nossas diferenças nas respectivas extensões territoriais e grande pelos valores que nós representamos, que podem ser resumidos em quatro palavras: Deus, pátria, família e liberdade", afirmou Bolsonaro sobre a Hungria.

Porém, além da dimensão ideológica, quais outros "aspectos" unem o Brasil ao país europeu?
Segundo o professor José Alexandre Hage, especialista em relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Hungria tem uma história importante no velho continente, com conhecimentos industriais acumulados ao longo de anos.
"Se o intercâmbio com a Hungria permitir maximização do comércio, entrando em méritos como tecnologia e defesa, eu vejo com bons olhos, não acho que seria um contratempo", avaliou o especialista em entrevista à Sputnik Brasil.
Ao final do encontro, o presidente brasileiro afirmou que os países assinaram acordos e protocolos de intenções.
Paralelamente à reunião de Bolsonaro e Orban, o ministro da Defesa do Brasil, Walter Braga Netto, e seu homólogo húngaro, Tibor Benko, assinaram um memorando de entendimento sobre cooperação no âmbito da defesa, informou a Agência Brasil.
Já o chanceler Carlos Alberto França e o ministro das Relações Exteriores e Comércio da Hungria, Peter Szijjarto, assinaram documentos referentes à promoção de ações humanitárias e à gestão de recursos hídricos e saneamento das águas.
Para o professor José Alexandre Hage, há um esforço por parte da imprensa em tentar rebaixar a relevância do Brasil no cenário internacional. O especialista acredita que equívocos da gestão de Bolsonaro possam ter poluído o debate sobre política internacional.
"Há uma vontade por parte da intelectualidade da imprensa de tornar o país medíocre. O que Bolsonaro faz não tem valor ou efeito", criticou.
O professor afirma que o Brasil ainda possui peso e posições internacionais importantes a apresentar, "apesar da crise econômica" dos últimos anos.

"Parece-me muito leviano dizer que a presença do presidente brasileiro em certo país não tem efeito, que não agrega em nada", ressaltou.

O especialista avalia que "o jogo internacional é pesado de interesses". Segundo ele, todos os países têm objetivos a cumprir e defendem posicionamentos e ações que julgam mais benéficas para seus respectivos povos.
"Ninguém é simpático ou 'passa a mão na cabeça'. Os EUA, se puderem, vão tentar passar por cima do Brasil. O Trump [ex-presidente dos EUA] buscou uma trégua, mas quando tiveram que proteger itens da economia, o fizeram", disse Hage.
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Márcio Florêncio Nunes Cambraia, embaixador e especialista da Fundação da Liberdade Econômica, destaca que visitas a chefes de Estado e de governo são "importantes marcos no fortalecimento das relações bilaterais entre países".
Para ele, impulsionar cooperações não depende de afinidades pessoais ou políticas, "embora boas relações pessoais possam facilitar o entendimento".

"O Brasil e a Hungria têm relações diplomáticas desde 1927. Tivemos importante imigração húngara para nosso país no período da primeira e da segunda guerras mundiais. Há significativo e diversificado fluxo de comércio entre os dois países, bem como acordos bilaterais econômicos e de ciência e tecnologia", disse à Sputnik Brasil.

O embaixador considera ainda que o Mercosul (Mercado Comum do Sul) pode se beneficiar das iniciativas diplomáticas brasileiras.
Ele lembra que, durante reunião da Comissão Mista Econômica Brasil-Hungria em 2019, o país se comprometeu a colaborar na ratificação do Acordo Mercosul-União Europeia, junto a seus parceiros europeus.
Além da União Europeia, a Hungria é membro da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Já a cientista política Ariane Roder, professora do COPPEAD/UFRJ e especialista em relações internacionais, tem uma visão distinta.
Segundo ela, viagens com propostas de estreitamentos bilaterais são comuns, mas esta "saiu do trivial".
"Quanto à diplomacia, entendo a viagem como algo negativo e desvantajoso para o país. Sob o ponto de vista comercial, a Hungria é bastante inexpressiva para o Brasil. Não se justificaria uma visita do presidente à Hungria para fins de natureza essencialmente econômica", analisou Roder.
Para a especialista em relações internacionais, o encontro com Orban representa um alinhamento discursivo após derrotas eleitorais recentes de líderes associados à extrema-direita, sendo a mais simbólica a de Donald Trump para Joe Biden, nos EUA, em 2020.
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Eleições húngaras e brasileiras

Há 12 anos no poder, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, do partido conservador de direita Fidesz (União Cívica Húngara), tentará a reeleição em dia 3 de abril, para um mandato de mais oito anos.
O governo enfrentará uma aliança de seis partidos da oposição, da esquerda à direita, liderada pelo conservador independente Peter Marki-Zay. As últimas pesquisas de opinião sugerem que a disputa será parelha, conforme noticiou a BBC.
Neste sentido, Roder classifica a viagem de Bolsonaro como "uma clara demonstração de apoio" à reeleição de Orban. Ao mesmo tempo, ela avalia que o presidente brasileiro "busca o estreitamento para o fortalecimento ideológico também de olho nas eleições nacionais", que ocorrem em 2 de outubro.

"Eu chamaria a viagem de busca estratégica de legitimação internacional de seu discurso de direita ultraconservador, demonstrando ao eleitorado que há outros países e lideranças que compartilham suas premissas políticas", disse Roder.

José Alexandre Hage, da Unifesp, por outro lado, não acredita que o encontro promova efeitos eleitorais para nenhum dos lados. Ele avalia que os eleitores colocam na balança as decisões internas dos líderes ao longo de seu mandato, independentemente de suas abordagens diplomáticas recentes.
O especialista entende que era natural Bolsonaro buscar a aproximação com Orban após embates com líderes europeus. Ele cita o desentendimento com Emmanuel Macron, presidente da França, sobre a questão ambiental referente à Amazônia, que foi o de maior repercussão internacional.

"Em uma situação em que as maiores potências europeias direcionam fogo contra o Brasil por causa de questões capciosas e nem sempre honestas — caso do Macron na França —, me parece muito lógico e lícito procurar apoio em outro governo", afirmou Hage.

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