Panorama internacional

Relatório do Comando Central dos EUA enumera falhas durante retirada do Afeganistão

Um documento militar norte-americano detalhou exemplos de ordens conflituosas e até contraprodutivas, falta de pessoal, atrasos e pouca coordenação durante o processo de saída dos EUA do Afeganistão.
Sputnik
O jornal The Washington Post publicou no sábado (12) uma análise oficial do Comando Central dos EUA, confirmando receios de má gestão da saída de norte-americanos e afegãos na segunda metade de agosto de 2021.
O relatório consiste em um resumo de 12 páginas e constitui apenas alguma da documentação que a Casa Branca negou existir na sexta-feira (11), mostrou uma falta de preparação e "confusão" causada por uma diretiva do Departamento de Estado dos EUA que ordenou a rotação de pessoal em meio à saída militar do Afeganistão.
Além disso, ocorreram atrasos no processamento de evacuados devido a indecisões burocráticas sobre os requisitos de elegibilidade, causados, por sua vez, por falta de mão-de-obra.
A apresentação apontou um "falhanço severo na gestão/rastreamento" após o ataque terrorista de 26 de agosto no Aeroporto Internacional de Cabul, no qual morreram 170 afegãos e 13 militares dos EUA, além da não priorização de cidadãos norte-americanos e um atraso na decisão de retirar pessoal da embaixada local. Um slide mostra que o Departamento de Estado exigiu um corte de 17% em seu pessoal entre 21 de julho e 10 de agosto.
'Mentiram desde início': mais de 500 americanos e residentes legais ainda podem estar no Afeganistão
A captura de Cabul pelo Talibã (organização sob sanções da ONU por atividade terrorista) em 15 de agosto resultou em caos, quando milhares de afegãos inundaram o aeroporto para fugir do Afeganistão, perturbando a capacidade dos militares dos EUA de assegurar a infraestrutura por quase dois dias.
Segundo o Comando Central norte-americano, as evacuações realizadas pela embaixada e através de vistos de imigrantes especiais afegãos deviam acontecer separadamente. No entanto, uma "diretiva para aumentar o fluxo de evacuados" da Casa Branca e "pedidos de apoio por várias centenas de grupos de interesse fora dos esquemas de priorização aumentaram rapidamente o fluxo de evacuados", causando o esgotamento e posterior atraso dessas vias de saída.
"Se tivesse havido um entendimento mais holístico das condições decididas para as decisões do começo [da saída] até [...] 9 de agosto, a evacuação [...] poderia ter sido executada mais eficientemente e permitido [às forças de segurança] gerir condições de segurança [no aeroporto] e permitir um processo [de evacuação] mais ordenado", resumiu a apresentação.
O documento também elogiou o Talibã e sua resposta de segurança após o ataque de 26 de agosto no aeroporto do EI-K, um ramo do Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países) que atua no Afeganistão e Paquistão. O texto indica que o compartilhamento de inteligência ajudou a "criar confiança e abriu linhas de comunicação críticas", permitindo controle do público, segurança externa e prevenção de posteriores ataques terroristas do EI-K.

Saída controversa

Na quinta-feira (10) Joe Biden, presidente dos EUA, rejeitou as conclusões de uma outra investigação do Exército do país, argumentando que "não havia um bom momento para sair” do Afeganistão.
Os EUA decidiram se retirar do Afeganistão em fevereiro de 2020, sob a administração de Donald Trump (2017-2021), quando assinaram um acordo nesse sentido com o Talibã em Doha, Catar. Após atrasos anunciados por Biden, o 20º aniversário dos ataques de 11 de setembro de 2001 foi decidido como prazo final.
O conflito foi causado em outubro de 2001 pela decisão do então presidente norte-americano George Bush (2001-2009) de matar Osama bin Laden, chefe da Al-Qaeda (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países), por supostamente orquestrar os ataques terroristas nos EUA. Ele acabou sendo morto em maio de 2011 no Paquistão, mas a presença dos EUA no Afeganistão durou ainda mais uma década.
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