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Brasil envia mensagem errada ao mundo com Bolsonaro indo à Rússia, diz ex-embaixador dos EUA

Segundo ex-chanceler dos EUA no Brasil, o momento é delicado, e não existe um porquê da viagem do presidente, Jair Bolsonaro, acontecer na próxima semana. Para ex-embaixador as relações entre Washington e Brasília "estão deterioradas" com os recentes posicionamentos do presidente brasileiro.
Sputnik
Na avaliação do ex-embaixador dos EUA no Brasil (1994-1998), Melvyn Levitsky, a viagem do presidente, Jair Bolsonaro (PL), à Rússia no dia 15 deste mês "dá um sinal errado" para o mundo diante das tensões entre Moscou e o Ocidente a respeito da Ucrânia.

"Um país importante como o Brasil fazer uma visita oficial neste momento é realmente um sinal errado, não só aos russos, mas a vários outros países pelo mundo que podem ter disputas similares. Há muitas disputas sobre fronteiras na África, por exemplo. Não queremos a erosão do princípio de resolver disputas pacificamente, em vez de ameaças de ações militares", disse o ex-chanceler em entrevista à Folha de São Paulo.

Para Levitsky, que também trabalhou na embaixada dos EUA em Moscou, a visita do presidente brasileiro não faz sentido "nos termos da posição do Brasil sobre a lei internacional".
"A viagem não faz sentido nos termos da posição do Brasil sobre a lei internacional. O país tem uma reputação de ser muito cuidadoso sobre o respeito às regras internacionais. É um membro muito ativo da ONU, e a Carta da ONU proíbe ações deste tipo, como tentar resolver uma disputa ou impor sua vontade a outro país por meios militares."
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Levitsky ainda fez comentários sobre a posição do presidente brasileiro, dizendo que ele pensa ser "normal manter a viagem", e que como argumento, Bolsonaro teria declarado que a visita à Rússia "era um plano de longa data", algo que o ex-embaixador interpretou como uma desculpa fraca.
"[...] Isso não é uma boa desculpa. Isso poderia ser adiado muito facilmente, dada a tensão que existe agora. Não vejo uma justificativa real por parte do governo brasileiro sobre o porquê desta visita parecer ser tão importante agora", afirmou.
O então embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Melvyn Levitsky (esquerda), e o então ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, durante assinatura de convênio antidrogas em Brasília (foto de arquivo)
Se a ida do chefe de Estado brasileiro a Moscou vai abalar a articulação entre Brasília e Washington, o ex-diplomata acredita que o relacionamento entre os países "tem deteriorado", principalmente pela posição de Bolsonaro "diante da pandemia e por seu apoio público a Donald Trump", mas acredita que "a relação vai prosseguir".
"Há ainda uma importante relação Brasil-EUA. Fui embaixador no Brasil e nós [EUA] sempre consideramos muito importante nosso relacionamento com o país. É importante em termos de comércio, investimentos privados no Brasil, e vice-versa. Isso [a viagem à Rússia] não ajuda na relação, mas ela irá prosseguir. Ela não tem de ser só no nível do topo [entre presidentes]", declarou.
Questionado sobre o que o Brasil poderia fazer para tentar ajudar a resolver a crise entre a Rússia e o Ocidente, Levitsky acredita que o país deveria fazer uma declaração oficial para "convencer os russos de que ações assim estão fora das leis internacionais".
"Há muitos países em desenvolvimento que acompanham o que Brasil está fazendo. Qualquer declaração do Brasil é bastante influenciadora", complementou.
Quando cita ações fora das leis internacionais, o ex-embaixador se remete ao fato de que, através de acusações dos EUA e da OTAN, a Rússia está planejando invadir a Ucrânia.
O Kremlin já destacou diversas vezes que Moscou não tem essa intenção, e que tem direito de exercer a livre movimentação de tropas dentro do seu próprio território.
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Em nota do Itamaraty enviada ao Kremlin sobre o itinerário do presidente Jair Bolsonaro, o mandatário sairá do Brasil no dia 14, chegando a Moscou no dia 15 e ficando até o dia 17, quando seguirá para Budapeste.
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