Ciência e sociedade

Pesquisa da Casa do Brasil de Lisboa: 75% dos imigrantes sofrem com discurso de ódio; veja histórias

O relatório "Discurso de ódio e imigração em Portugal", produzido pela Casa do Brasil de Lisboa, mostra que 75,5% das 122 inquiridos já sofreram algum tipo de discurso de ódio baseado em preconceitos e estereótipos por ser imigrante em Portugal. Sputnik Brasil teve acesso à pesquisa e ouviu vítimas.
Sputnik
Para a realização do diagnóstico, financiado pelo Alto Comissariado para as Migrações (ACM), a Casa do Brasil de Lisboa disponibilizou um inquérito on-line, com perguntas quantitativas e qualitativas, distribuído por todas as regiões de Portugal. A recolha de dados ocorreu entre 3 de maio a 31 de agosto de 2021.
O estudo revela que a Internet é justamente o principal meio em que as pessoas inquiridas percebem o discurso de ódio contra imigrantes, com 32,4% das respostas, sobretudo nas redes sociais. Em seguida, aparecem os serviços públicos (20,9%), seguidos de perto por instituições de ensino (19,6%).
Gráfico sobre meios em mais se percebe a disseminação de discurso de ódio contra imigrantes em Portugal
Entre as nacionalidades das pessoas inquiridas, a brasileira lidera com 66%, seguida pela portuguesa (12%), luso-brasileira (8,2%), argentina e italiana (2,5% cada). Entre os tipos de discurso de ódio, 73,7% relataram ter sofrido algum episódio de xenofobia em Portugal; 9,5% disseram ter sido vítimas de ódio racial em simultâneo com xenofobia; 6,3%, somente racismo.
A fotógrafa carioca Camile Braga mora em Lisboa e está no grupo de vítimas de discurso de ódio na Internet. Ironicamente, o episódio aconteceu quando ela comentou no Instagram a publicação do jornal português Público sobre uma reportagem que mostrava portugueses preocupados com o fato de seus filhos estarem falando "brasileiro".
"Comentei que o fato de a língua portuguesa ser uma das mais faladas no mundo é por causa do Brasil, pelo seu tamanho e população imensa. E que, se não fosse a colonização, o português seria tão falado no mundo como o polonês ou o búlgaro", conta Camile à Sputnik Brasil.
Como resposta, um perfil identificado com o nome Caesar Iberus escreveu o seguinte:
"Quem me dera que o português fosse como o polaco ou o búlgaro e que não tivéssemos [sic] ligados, falando no geral, a bestas mestiças. Não vos queremos cá, não queremos a vossa horrorosa forma de falar presente no dia-a-dia dos jovens portugueses. Ponham-se a andar, pardos nojentos! Já ontem era tarde", lia-se no comentário.
Discurso de ódio contra a fotógrafa carioca Camile Braga no Instagram
Camile e outras mulheres do Coletivo Andorinhas denunciaram o comentário, e o Instagram o apagou. No entanto, até a publicação desta reportagem, o perfil de Caesar Iberus continuava ativo. Indagada pela Sputnik Brasil como se sentiu ao ler aquela mensagem, a carioca desabafa.
"Triste, com raiva, não vendo luz no fim desse túnel de ignorância… Acho que quem pensa assim tem sido cada dia mais legitimado. O que antes era mais disfarçado, agora está exposto e facilitado pelas redes sociais, pelos perfis falsos, pelo discurso de muita gente grande, com destaque, que acaba fortalecendo esse ódio", lamenta.

'Brasileiros são híbridos de macaco com europeu'

A Sputnik Brasil entrou em contato em Lisboa, por mensagem direta no Instagram, com o perfil identificado com o nome Caesar Iberus. Questionado por que discriminava brasileiros e pessoas pardas, o proprietário da conta também atacou o jornalista.

"Porque vocês são seres aberrantes, híbridos de macaco com europeu. Seres de baixo QI, que nos invadem aos milhões, servem de mão de obra barata aos nossos liberais, o que faz com que os nossos emigrem e, portanto, desta forma, aumenta ainda mais a substituição populacional. Não queremos cá macacos, queremos preservar o nosso legado étnico de tanto valor com milhares de anos", respondeu Caesar Iberus a este correspondente da Sputnik Brasil em Lisboa.

Perfil que se identifica como Caesar Iberus nas redes, em resposta ao correspondente da Sputnik Brasil em Lisboa
Alertado de que estava cometendo um crime com seu discurso de ódio, ele riu. De acordo com o artigo 240º do Código Penal português, é crime "difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de gênero ou deficiência física ou psíquica". A pena prevista é de prisão de seis meses a cinco anos.
Em suas respostas seguintes, mostrou ser partidário da causa identitária e ter inclinação antivacina, além de admitir ser racista. Na única publicação que tinha em seu feed, era possível ver uma faixa com a inscrição "Europa para europeus".

"Pardo, percebe uma coisa, eu não tenho que respeitar uma Constituição liberal igualitária e artigos que vão contra a razão. Ninguém cumpre a Constituição. Sejam racistas ou esquerdistas liberais", respondeu.

Ao ser indagado se também fazia parte do movimento antivacina, ele disse que este correspondente da Sputnik estava fazendo "demasiadas perguntas", bloqueou-o e alterou o nome do seu perfil para Dom Manuel.
Segundo o Instagram, entre julho e setembro de 2021, a plataforma tomou medidas em relação a 6,5 milhões de itens contendo discurso de ódio, incluindo mensagens diretas, "nas quais 95% das vezes encontramos indícios antes de qualquer denúncia".
Em publicações recuperadas em cache pela Sputnik Brasil, é possível ver que uma conta com o nome de Caesar Iberus já havia sido suspensa pelo Twitter após publicações xenófobas e racistas, como "Não te quero cá. Tenho o direito de preservar o patrimônio genético que os meus antepassados me deixaram. Inveja? De quê? De pertencer à raça menos desenvolvida e que fez 0 contribuições à humanidade?", indagou no tweet.
A mensagem era destinada à brasileira X., cuja foto ele compartilhou com o comentário "Pessoal, riam-se aí um bocado. Esta gaja [menina] diz ser branca e não mestiça". X., que prefere manter sua identidade preservada, respondeu que não era mestiça, mas preta. À Sputnik Brasil, ela diz que não foi a primeira nem a segunda vez.
Discurso de ódio contra brasileira em mensagem xenófoba e racista de perfil suspenso no Twitter

"Sinceramente, já fui tão atacada aqui no Twitter por pessoas racistas e conservadoras, que nem sei de qual situação estamos a falar mesmo", reconhece.

Relatório mostra que 86% das vítimas não denunciam

O relatório da Casa do Brasil de Lisboa mostra, ainda, que 86,4% dos inquiridos não denunciaram os episódios de discurso de ódio às autoridades. Entre os motivos alegados para não denunciar estão: desconhecimento da identidade da pessoa agressora; medo de represália, de perder o emprego, o visto ou o título de residência; não saber onde fazer a denúncia; não ter provas; falta de confiança nos órgãos públicos; vergonha e insegurança.
A pesquisa faz parte do projeto "#MigraMyths - Desmistificando a Imigração", criado com o objetivo de combater o discurso de ódio e a desinformação relacionada à imigração e às comunidades imigrantes em Portugal, assim como sensibilizar a comunidade portuguesa para a desconstrução de mitos, estereótipos e preconceitos contra imigrantes.
Na primeira edição, lançada no fim de 2020, o relatório de diagnóstico constatou que 85,6% dos imigrantes inquiridos haviam sido vítimas de algum tipo de preconceito baseado nos mitos e estereótipos sobre a imigração em Portugal. Em entrevista à Sputnik Brasil, a cientista política Ana Paula Costa, membro da Casa do Brasil de Lisboa, afirma que a percepção da xenofobia aumentou na segunda edição, apesar de o percentual de pessoas relatando ser vítima de discurso de ódio ter sido menor.

"Como o foco da segunda pesquisa era o discurso de ódio e a sua própria definição é o ataque contra grupos minorizados, com base na nacionalidade, religião, cor etc,. a xenofobia também ficou evidente. Penso que o número diminuiu do primeiro para o segundo relatório porque o discurso de ódio é um problema mais específico, com uma definição ainda pouco clara, um fenômeno que tem sido falado com maior amplitude há pouco tempo e, muitas vezes, as pessoas não sabem que a xenofobia pode vir em forma de discurso de ódio", explica Ana Paula à Sputnik Brasil.

Ela afirma que a pandemia de COVID-19 impactou os episódios de ódio e xenofobia. Segundo a cientista política, isso é explicado por alguns fatores, como, em um primeiro momento, o vírus ter sido associado aos chineses e, depois, aos imigrantes de uma forma geral. Ela acrescenta que o contexto de pandemia foi permeado por desinformação, o que ficou evidente com o surgimento de várias fake news associando a imigração ao vírus.

"Infelizmente, nos momentos de crise, observamos que é comum a criação de inimigos e bodes expiatórios. As pessoas passaram mais tempo on-line, com acesso a muita informação, sem que fosse possível checar. Sendo a pandemia um fenômeno novo, em que inicialmente não se sabia muito sobre o vírus, [isso] contribuiu para a criação de estereótipos e teorias da conspiração que motivaram ódio e xenofobia", analisa.

A cientista política Ana Paula Costa, membro da direção da Casa do Brasil de Lisboa
Ana Paula relembra que, no início da pandemia, descobriram um hostel em Lisboa, onde requerentes de asilo estavam hospedados, e a maioria deles estava infectada. De acordo com ela, logo puderam ser observados discursos de ódio e xenofobia direcionados a todos os imigrantes e refugiados, de forma geral.
"Foi muito marcante, pois essas pessoas estavam em situação de vulnerabilidade, aguardando uma resposta do Estado e passaram por mais um tipo de violência por causa da xenofobia e do discurso de ódio", recorda.
Indagada se, além dos chineses, os brasileiros também tinham sido associados ao perigo da transmissão da COVID-19, Ana Paula ressalta que a problemática mais específica com relação aos brasileiros se deu por conta da "gestão da pandemia" no Brasil, com um aumento expressivo de casos de COVID-19.
"Devido a uma inércia do governo, o Brasil entrou na lista vermelha dos países com maior número de casos e mortes, e isto também favoreceu para que brasileiros fossem associados ao vírus e perigo de transmissão", justifica.
Comentar