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Venda de equipamentos militares do Brasil bate recorde, e analista afirma: 'Há margem para crescer'

A indústria bélica do Brasil atingiu a marca de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 8,3 bilhões) em exportações em 2021. Para Roberto Godoy, especialista em assuntos militares, futuro do setor depende da relação que o país assumirá com a indústria de defesa.
Sputnik
Na noite de quarta-feira (8), o ministro da Defesa, Walter Souza Braga Netto, estava feliz durante a cerimônia da 6ª Mostra BID Brasil, realizada em Brasília. Em um dos seminários que participou, ele apresentou, entre sorrisos, os números da indústria da defesa em 2021, e destacou que as exportações superaram o valor de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 8,3 bilhões).
"Os resultados mostram que estamos no caminho certo", comentou, apontando em seguida a participação do setor no PIB nacional, que cresceu mais de 8% no biênio 2019-2020 em relação a 2018. Ele ainda citou a diversidade do portfólio brasileiro, "composto por aeronaves, embarcações, ferramentas cibernéticas para proteção de dados, radares, sistemas seguros de comunicação, armamentos, e entre outros itens de alta tecnologia".
Há boas razões para a felicidade do general. A Base Industrial de Defesa (BID) representa atualmente 4,7% do PIB nacional, com uma taxa de crescimento que superou, em 2020, a de setores tradicionais da economia brasileira, como a construção civil, a agricultura e a extração de petróleo. O especialista em assuntos militares Roberto Godoy, em entrevista à Sputnik Brasil, fez uma análise deste quadro apresentado pelo ministro da Defesa brasileiro.
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Godoy explicou que, ao analisar as causas do sucesso da indústria militar brasileira, é preciso compreender que o governo foi inteligente ao manter o parque industrial que herdou, promovendo o aumento do investimento em alguns programas estratégicos.
O especialista comentou que o projeto iniciado em 2007 pelo governo Lula, "de modernizar as Forças Armadas objetivando um reflexo na indústria de defesa", foi levado adiante pela gestão de Jair Bolsonaro.
Para ele, o projeto de Lula foi o estopim para o recente ciclo de desenvolvimento da indústria militar. Na época, explicou Roberto Godoy, "tudo o que fosse comprado fora teria que ser comprado com transferência de tecnologia".
Submarino de classe Scorpène S40 Riachuelo, o primeiro do Prosub a ser lançado ao mar, em 2018. Foto de arquivo
Os casos mais claros disso são o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), e o programa de renovação da frota de caças. "Em ambas as compras, foi condicionada a transferência de tecnologia", assinalou.

'O pulo do gato é o resgate de uma tradição'

De acordo com Roberto Godoy, "o pulo do gato" da indústria militar brasileira nos últimos anos foi respeitar a tradição do país de se posicionar como um importante agente no mercado internacional de armas.
Ele comentou que a década de 1980, sobretudo a partir de 1985, foi o grande momento da indústria bélica do Brasil. "Naquela época, uma única empresa foi capaz de vender o valor que o governo Bolsonaro comemora nas vendas de um ano inteiro", avaliou.
A Viatura Blindada de Transporte de Pessoal (VBTP) Guarani, em 19 de outubro de 2016. Foto de arquivo
Ao falar sobre o complexo industrial do Brasil, enfatizou que alguns blindados da época ainda são utilizados até hoje, como é o caso do blindado Cascavel, veículo de reconhecimento armado com um canhão de 90 mm, além de outros equipamentos. O especialista comentou que, "nos anos 1990, houve um desmonte da estrutura industrial militar".

"Eram 120 empresas em 1900, mas muitas quebraram. Restou a divisão militar da Embraer, a Avibras, e o pessoal que produz equipamentos de posse pessoal, como a Taurus, que se aproveita das condições atuais do governo de Bolsonaro para alavancar suas vendas no mercado interno. É muito mais confortável ir para exterior apresentando um lançador múltiplo de foguetes, que é usado pelas Forças Armadas. Esse é o pulo do gato, o resgate de uma tradição", afirmou.

Equipamentos que simbolizam o sucesso brasileiro

Ao ser questionado sobre qual seria o equipamento que encanta nossos clientes no exterior, Godoy avalia que é, sem dúvida, "o setor de produção de vetores não tripulados, ou seja, foguetes e mísseis". Ele citou como exemplo de sucesso a Avibras, e o Astros II, que está entrando em sua sexta geração após anos sendo vendido em países do Oriente Médio e no norte da África.
Exército do Brasil recebe sistemas de lançadores múltiplos de foguetes Astros versão MK-6 do projeto estratégico do Exército Astros 2020. Foto de arquivo
"Os cliente da região do Golfo gostam muito deste equipamento, que atualmente está sendo chamado de Astros 2020, cujo diferencial é o lançador de foguetes de saturação, de artilharia, com estabilização aerodinâmica e direcionado a um determinado alvo. A grande novidade do Astros 2020 é que ele lança três diferentes tipos de foguetes, de curta, média e longa distância, e incorporou recentemente ao seu sistema um míssil de cruzeiro, muito sofisticado, com alcance de 300 km e precisão digital", disse o especialista.
Sub-munição encontrada em um míssil Astros II, de fabricação brasileira, após um ataque da coalizão saudita no Iêmen em dezembro de 2016. Foto de arquivo
Ainda comentando sobre os equipamentos que fazem sucesso no exterior, o especialista ainda citou o trabalho desenvolvido pela Embraer, em especial com relação ao cargueiro KC-390 Millenium, que pode realizar múltiplas tarefas, como o reabastecimento em voo de outras aeronaves, além de socorro médico, servir de hospital e etc.
Godoy ainda defendeu o "campeão de vendas" brasileiro, a frota do Super Tucano, que hoje é usado por 15 países no mundo. Ele lembrou que a aeronave "tem 130 combinações de armas diferentes". Segundo ele, isso facilita a aquisição por outros países, como a Colômbia, que utiliza o avião leve para combater o narcotráfico, dada a sua versatilidade e capacidade de adaptação.
Militares da FAB no avião KC-390 Millennium durante exercício nos EUA. Foto de arquivo

"Vários clientes pedem sigilo quanto aos valores envolvidos nas compras do Super Tucano. Na versão básica, com o mínimo de equipamento, ele custa US$ 9 milhões (cerca de R$ 50 milhões)", comentou.

O especialista analisou que o grande cliente internacional, comprador de equipamentos militares no Brasil, é a Arábia Saudita, "que comprou um lote considerável de novos lançadores de foguetes. Ele ainda incluiu nesta lista a Indonésia e a Malásia, destacando a importância de clientes no Oriente Médio, África, América Latina e Ásia.
Questionado sobre o futuro da indústria para os próximos anos, Roberto Godoy afirmou que ainda é muito cedo para fazer qualquer previsão sobre os negócios. "Podemos imaginar um bom ano em 2022, pois haverá retomada de vendas".
O problema, para ele, não é falta de interesse estrangeiro nos produtos brasileiros. "O problema é que o Brasil tem uma relação de amor e ódio com a indústria da defesa". Ele apontou que há constrangimento com a indústria nacional porque o país foi vanguarda na diplomacia internacional, e às vezes sente-se obrigado a renegar a indústria bélica em detrimento do diálogo e de uma posição pacífica e neutra.
Embraer A-29 Super Tucano da Força Aérea do Afeganistão . Foto de arquivo
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