Serviços de segurança dos EUA ameaçam o jornalismo, diz especialista americano

Agências norte-americanas como a CIA e a NSA têm lutado contra a "publicação da verdade sobre suas atividades sujas", relatou à Sputnik um ex-membro do FBI.
Sputnik
Os serviços secretos norte-americanos representam uma ameaça ao jornalismo investigativo, disse Marjorie Cohn, professora da Escola de Direito Thomas Jefferson, Califórnia, EUA, e ex-presidente da Liga Nacional de Advogados, à Sputnik.
"O caso do fundador [do WikiLeaks, Julian] Assange, que enfrenta 175 anos de prisão por revelar crimes de guerra nos EUA, tem sido praticamente ignorado pelos gigantes da mídia [norte-americanos], mas esperamos que a divulgação do Yahoo News das ameaças do [ex-secretário de Estado dos EUA, Mike] Pompeo contra Assange possa lançar luz sobre a ameaça de segurança nacional ao gênero de jornalismo de investigação", disse Cohn no 15º aniversário da fundação do site do WikiLeaks.
Em 26 de setembro, o portal Yahoo News publicou uma investigação, segundo a qual funcionários dos EUA e da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) norte-americana em 2017 discutiram a possibilidade do assassinato de Assange enquanto ele se refugiava na embaixada do Equador em Londres, Reino Unido. Segundo o Yahoo News, era planejado que Assange fosse sequestrado da embaixada, ou capturado no caso de tentar escapar.
Helen Caldicott, fundadora e ex-diretora da organização não governamental Médicos pela Sobrevivência Mundial (PGS, na sigla em inglês), disse à Sputnik que "não ficou surpresa" com as revelações.
"O que nós aprendemos [graças ao WikiLeaks] com o funcionamento interno da CIA e da NSA [Agência de Segurança Nacional dos EUA] e uma série de outras organizações ajudou muitos de nós a entender o que está acontecendo nas nossas costas em total sigilo", comentou Caldicott, que crê que Assange não é um homem corajoso, mas simplesmente "um típico australiano que foi criado para ser honesto e nunca ceder ao que os outros o acusam".
Segundo Cohn, "as publicações reveladoras do WikiLeaks sobre crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Iraque, Afeganistão, Baía de Guantánamo em 2010-2011 foram muito importantes para entender o que o governo dos EUA estava fazendo em nome dos americanos".
Por sua vez, Colleen Rowley, ex-agente especial do FBI, que investigou ativamente as ações da organização em conexão com os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, considera como maior conquista do WikiLeaks "a possibilidade de os subordinados honestos compartilharem anonimamente informações sobre o perigo da elite que controla as autoridades, corporações corruptas e/ou outros grupos de poder secretos, se engajar em atividades ilegais ou que colocam em perigo o público".
"11 anos atrás escrevi que se o WikiLeaks tivesse existido na época [em 2001], provavelmente haveria funcionários públicos honestos que teriam compartilhado informações com o público que teriam ajudado a evitar os ataques do 11 de setembro", acredita Rowley, e disse que "o modelo do WikiLeaks" fortalece de tal forma a liberdade de expressão e de imprensa garantidas pela 1ª Emenda à Constituição dos EUA que a grande mídia passou a usar os mesmos documentos e métodos de proteção das fontes.
"Infelizmente, aqueles no poder, tais como empresas militares, gigantes farmacêuticos e outros empresários, logo encontraram novas maneiras de recuperar o controle da mídia [incluindo as redes sociais], não apenas para impedir a publicação da verdade sobre suas atividades sujas, mas também para garantir que o público só obtenha suas próprias informações, que atendam aos seus interesses", descreve Rowley.
William Binney, ex-funcionário sênior e analista da NSA, compartilha esse ponto de vista.
"Quando o governo ou agências de inteligência controlam a grande mídia, eles também têm como alvo outras plataformas que revelam a verdade às pessoas. Tentativas de manipular o público para fazer o que lhes é dito estão acontecendo em escala global, então eles precisam silenciar a todo custo o WikiLeaks, que revela os crimes que eles estão cometendo", afirmou ele.
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