China começa a operar no porto de Haifa; poderia tal fato abalar relação entre EUA e Israel?

Segundo o especialista, o gerenciamento chinês de um porto israelense poderia não só perturbar a relação entre Washington e Tel Aviv, como mostra que o Estado judeu está mudando sua política externa.
Sputnik
Israel abriu oficialmente, no dia 5 de agosto, um novo terminal portuário em Haifa – local de transporte marítimo mais movimentado do país – que permitirá a grandes navios de transporte atracarem no local. 
A estrutura do terminal é gigante, podendo receber embarcações de 400 metros transportando cerca de 18.000 contêineres.
Quem opera o porto é a empresa chinesa Shanghai International Port Group, que havia conquistado o contrato para gerenciar o terminal em 2015, entretanto, o projeto foi adiado após sérias objeções levantadas pela Marinha dos EUA em relação ao acordo.
No início deste ano, foi relatado que Tel Aviv recusou o pedido de Washington para inspecionar o porto enquanto o Pentágono fazia críticas a Israel pela participação da China no projeto de US$ 1,7 bilhão (R$ 8,8 bilhões).
Contêiner sendo descarregado de um navio de carga enquanto está atracado no Porto de Haifa, Israel, 8 de agosto de 2021
O relatório da Lei de Autorização de Defesa Nacional para o Ano Fiscal de 2020 (NDAA 2020, na sigla em inglês) dos EUA mencionou que a presença chinesa prejudicará os interesses norte-americanos na "futura presença avançada de navios da Marinha dos Estados Unidos no porto de Haifa". 
Washington então exortou "o governo de Israel a considerar as implicações de segurança do investimento estrangeiro chinês".
Segundo Seshadri Vasan, ex-oficial da Marinha indiana e diretor do Centro de Estudos da China de Chennai (C3S, na sigla em inlgês), ouvido pela Sputnik, o projeto não só criou tensões na relação entre norte-americanos e judeus, mas também demonstrou que Tel Aviv pode estar começando a formar uma nova política externa.
"Para Israel, este projeto não só criará ressentimento com os EUA, mas também levantará questões sobre a forma mais ampla que a política externa de Tel Aviv está tomando. Alguns relatos na mídia israelense indicam que os termos exatos do acordo não foram claros até agora. Embora Israel queira que Washington acredite que este é um contrato comercial, a realidade é que as dimensões são estratégicas e militares também", disse.
Vasan também destacou que o porto pode desempenhar um papel importante para o desenvolvimento da nova Rota da Seda chinesa.
"O porto de Haifa pode desempenhar um papel crucial nos próximos anos para estender as ambições chinesas ao Oriente Médio relativos à nova Rota da Seda. A China está investindo não apenas em Israel, mas em outras nações da região em grande escala, assim como a vizinha região mediterrânea", elucidou o ex-oficial.
Um trabalhador portuário sobe uma escada em um navio de carga enquanto ele está atracado no Porto de Haifa, Israel, em 8 de agosto de 2021
Já o ministro dos Transportes israelense, Merav Michaeli, disse que o terminal é uma oportunidade para "fortalecer nossas capacidades regionais no comércio marítimo" e alavancá-las "não apenas para a prosperidade local, mas para a realização de oportunidades e uma contribuição genuína para nossos vizinhos no Oriente Médio".
Quando diz vizinhos, Michaeli estaria fazendo referencia aos Emirados Árabes Unidos e Bahrein.
Neste ano, Israel inaugurará outro porto financiado pela China na costa do Mediterrâneo, que está sendo construído com um investimento aproximado de US$ 930 milhões (R$ 4,8 bilhões).
"Devemos observar que Israel já exporta equipamentos de defesa para a China e tem fortalecido seus laços", concluiu Vasan.
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