COVID-19: Portugal atinge 70% da população vacinada, mas imunidade de grupo só acima de 85%; entenda

A ministra da Saúde de Portugal, Marta Temido, anunciou que o país atingiu a meta de 70% da população do país completamente vacinada contra COVID-19 nesta semana. Mas o coordenador do plano de vacinação diz que a imunidade de grupo só será alcançada acima de 85%. Médicos ouvidos pela Sputnik Brasil divergem.
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Com os 70% atingidos duas semanas antes da previsão, o governo português antecipou também a segunda fase do novo plano de desconfinamento. As novas medidas foram anunciadas nesta sexta-feira (20), após uma reunião extraordinária do Conselho de Ministros, e passam a vigorar a partir da próxima segunda-feira (23).

A principal mudança é a de que os transportes públicos passam a circular sem limites de passageiros. Espetáculos culturais e eventos festivos, como casamentos e batizados, aumentam a capacidade para 75% de lotação. Já restaurantes, cafés e pastelarias ampliam o limite máximo para oito pessoas por grupo no interior, e 15 em esplanadas (do lado de fora).

Com isso, Portugal sai do estado de calamidade para o estado de contingência. Contudo, o uso de máscaras em vias públicas continuará obrigatório até 12 de setembro, pelo menos, já que é uma medida que depende da Assembleia da República, que estará em recesso até esta data. 

A apresentação do Certificado COVID-19, que indique vacinação completa, remissão da doença ou teste negativo, continua obrigatória em restaurantes, aos fins de semana, e em eventos, dependendo da lotação: em casamentos e batizados com mais de dez pessoas e em eventos culturais, esportivos ou corporativos  com mais de mil participantes (em ambiente aberto) ou 500 (fechado).

No dia anterior, o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo já havia dito que, com a variante Delta, com 99,5% de predominância em Portugal, a imunidade de grupo não seria mais atingida com 70% da população completamente vacinada, como se cogitara antes. O militar, responsável pelo plano nacional de vacinação, traçou a nova meta dos 85% para setembro, entre a terceira e quarta semanas. 

"Não se tem a certeza [de] que se atingirá a imunidade de grupo. Mas, se for atingida, é acima dos 85% [de pessoas vacinadas]", disse Gouveia e Melo à SIC. 
COVID-19: Portugal atinge 70% da população vacinada, mas imunidade de grupo só acima de 85%; entenda

Na verdade, não há consenso dentro da comunidade científica sobre esse novo patamar. O próprio responsável pela criação da vacina da AstraZeneca, Andrew Pollard, afirmou recentemente a deputados britânicos que, com a maior transmissibilidade da variante Delta, não há mais possibilidades de se alcançar a imunidade do grupo, o que seria algo "mítico".

"A variante Delta vai ainda infectar as pessoas que já foram vacinadas, e isso significa que qualquer pessoa que ainda não foi vacinada vai ser infectada com o vírus a qualquer momento, e não temos nada que pare [completamente] essa transmissão", explicou Pollard na ocasião.

'Com cepa mais transmissível, limiar é mais elevado', diz especialista

Em entrevista à Sputnik Brasil, o epidemiologista Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública de Portugal, segue uma linha de raciocínio similar. De acordo com ele, desde o início, houve uma ideia equivocada de que a imunidade de grupo seria atingida com 70% da população vacinada, o que não foi desfeito. A própria imprensa portuguesa usava esse patamar até o início desta semana.

"Isso nunca foi uma realidade. Havia essa estimativa, mas são dois conceitos diferentes. Naturalmente, agora, com uma variante mais transmissível, o limiar para atingir a imunidade de grupo é mais elevado. Por isso que se fala agora nos 85%. Mas, de qualquer forma, há quem discuta se vai ser possível atingir a imunidade do grupo", pondera Mexia.

Para o especialista, o aspecto mais essencial é ter havido uma redução muito importante da severidade da doença, com queda nos números de internamentos e óbitos, quando comparados com a incidência que havia em janeiro ou fevereiro. O boletim epidemiológico divulgado nesta sexta-feira (20) pela Direção-Geral da Saúde (DGS) indica que, nas últimas 24 horas, houve nove mortes e 2.507 novos casos.

Já o relatório semanal das "Linhas Vermelhas para a COVID-19", elaborado pela DGS e pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), aponta uma tendência "estável a decrescente" no número de internamentos em unidades de cuidados intensivos (UCI) em todas as faixas etárias, correspondendo a 55% (contra 66%, na semana anterior) do valor crítico definido de 255 camas ocupadas.

"O que me parece é que atingimos um bom nível de cobertura vacinal, nomeadamente, naqueles grupos mais vulneráveis, como idosos e pessoas com doenças pré-existentes. Neste contexto, acredito que já conseguimos proteger de forma relevante essa população", avalia.

O epidemiologista acredita que se aproxima a fase em que todas as pessoas que queiram ser vacinadas e se inscreveram para isso sejam imunizadas. Depois de uma polêmica sobre a vacinação universal de crianças e adolescentes dos 12 aos 15 anos, essa faixa etária começa a ser inoculada neste fim de semana. Cerca de 110 mil jovens dessas idades, um quarto do total, devem ser contemplados. 

A meta é terminar de vaciná-los até 19 de setembro, no fim das férias escolares, para que voltem às escolas completamente imunizados. Mexia relativiza a importância e não considera que isso seja requisito para eles regressarem às aulas. Conforme o especialista, apesar de os colégios terem registrado casos, até com o isolamento de turmas, não foram um grande foco de disseminação da doença, mesmo na pré-vacinação.

"Não me preocuparia tanto com essa questão. Evidentemente, estando as crianças também protegidas, temos melhores condições para avançar. Agora, importa tentar perceber aquelas pessoas que não foram vacinadas, por que é que não foram? Ainda temos algumas, bastantes, em grupos com mais idade, nas faixas dos 40 ou 50 anos. Temos que assegurar que elas são esclarecidas e que se deslocam até um centro de vacinação para poderem ser vacinadas", recomenda. 

'Gouveia e Melo é o Pazuello que todo país devia ter', diz médico carioca

O médico carioca Marcio Sister, que mora e trabalha em Vila Nova de Gaia, cidade vizinha ao Porto, no Norte de Portugal, endossa o coro de Mexia de que, mais importante do que a imunidade de grupo, são as quedas nos números de mortes e internamentos em cuidados intensivos. 

Sister ressalta que nem especialistas, como virologistas e infectologistas, têm consenso sobre o tema e questiona a mudança de metas, como a de 70% para 85%, que parece ser aleatória. Segundo ele, isso já mostra que ninguém está seguro quanto à imunidade de grupo.

"A finalidade é vacinar todo mundo. Enquanto isso não acontecer, falar em nível de imunidade de grupo é bobagem. Esses 85% podem continuar transmitindo para os 15%, os 15% para os 85%, vão transmitir entre si, e o vírus vai mudar. Nesse momento é a variante Delta. Depois, vai ter outra, com certeza. Por que 85% e não 80% ou 90%? Quem estabelece isso?", indaga Sister.

Apesar de considerar confusos os critérios, o médico brasileiro elogia o trabalho exercido pelo vice-almirante Gouveia e Melo à frente da coordenação do plano de vacinação. Vale lembrar que o militar assumiu o comando no início de fevereiro, com a missão de resgatar a credibilidade do plano, depois que o antigo coordenador, Francisco Ramos, pediu demissão por detectar irregularidades no processo de seleção de profissionais de saúde vacinados no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa.

Avesso a holofotes, Gouveia e Melo tem dito que quer completar sua missão para voltar ao anonimato. Nesta quinta-feira (19), ele foi condecorado pelo presidente Marcelo Rebelo de Souza com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis por sua carreira militar. O vice-almirante também já havia sido condecorado por Jair Bolsonaro com a medalha da Ordem do Mérito Naval, em 2020. Sister faz um paralelo com o Brasil.

"Sou fã incondicional do vice-almirante. Logisticamente, ele é o [general Eduardo] Pazuello que todo país devia ter. É o cara que o Pazuello deveria ter sido no Brasil em termos logísticos. Ele foi para a rua e carregou essa vacinação nas costas. Aparentemente, ele não gosta dessa evidência", opina. 
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Sister também defende o uso de máscaras, mesmo em vias públicas. De acordo com ele, ainda é a barreira física mais eficiente para prevenir a proliferação do vírus. Por outro lado, apesar de reconhecer a eficácia do confinamento, ele concorda que as pessoas já não podem mais ficar confinadas. 

"Vírus a gente tem o tempo todo. As pessoas se adaptam, e os vírus também. Vão aparecer novas cepas. Acho que as companhias farmacêuticas têm conhecimento disso e, até por isso, [com] as duas primeiras doses meio que não ganharam dinheiro. Tenho certeza de que, daqui para frente, vão ganhar muito dinheiro, porque vamos precisar de novas vacinas", prevê.
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