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Analista: 10 anos após Fukushima, Japão é exemplo em eficiência energética e Brasil pode aprender

Sputnik Brasil conversou com especialista sobre a crise energética que o Japão passou na última década, como o país asiático se tornou uma referência em eficiência energética e que lições o Brasil pode aprender.
Sputnik

Em 11 de março de 2011, um terremoto de magnitude 9,0 na escala Richter atingiu a costa leste da ilha japonesa de Honshu. Em seguida, um tsunami de 40 metros de altura atingiu a costa nordeste, matando cerca de 16 mil pessoas e ameaçando com um grande desastre nuclear.

Três reatores nucleares na usina de Fukushima Daiichi derreteram, sendo este pior desastre desta natureza desde Chernobyl em 1986. Imediatamente após o incidente, o governo japonês anunciou planos para eliminar a energia nuclear.

O Japão não eliminou a energia nuclear, mas está investindo pesado em energias renováveis e o país se tornou uma referência em eficiência energética. Para entender melhor como ocorreu essa transformação e como Japão e Brasil podem colaborar na área energética, a Sputnik Brasil conversou com Alexandre Uehara, coordenador acadêmico do Centro Brasileiro de Estudos sobre Negócios Internacionais & Diplomacia Corporativa (CBENI) da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo.

Da energia nuclear para de origem fóssil

A usina de Fukushima estava entre as mais potentes do mundo. Ao todo, eram retirados de lá cerca de cinco gigawatts de energia. O Japão era o terceiro maior produtor de energia nuclear do mundo, as usinas atômicas geravam um terço de toda a energia consumida no país, e a intenção do governo era elevar o índice a 50%. Mas com o acidente, a população se voltou contra as usinas atômicas.

"Foi bem complicado, o Japão tinha uma dependência importante da energia nuclear. Com o episódio, isso teve um impacto na opinião pública sobre energia nuclear. O governo japonês tinha todo um planejamento, eles queriam desenvolver a divulgação da energia japonesa como energia limpa [usando] Fukushima […]. O Japão teve um período complicado porque as usinas foram todas paradas para que houvesse uma reavaliação da segurança das usinas", explica Alexandre Uehara.

O especialista comenta que a energia nuclear não foi totalmente abandonada ainda, mas é pouco utilizada. Dessa forma, o país teve que ir atrás de outras formas para suprir essa grande lacuna na geração de energia.

"Dada que teve essa redução do uso das usinas nucleares para o fornecimento de energia, o Japão foi buscar compensar passando a usar termelétricas. Tanto petróleo como gás sendo usados para compensar, só que tem outro problema: o compromisso com o aquecimento global. Resolveu de um lado, mas prejudicou de outro. Há toda uma cobrança para a redução de gás carbônico e a queima de petróleo ou carvão tem esse aspecto negativo. Agora há uma política de redução do uso de termelétricas por causa disso, buscando usar energias renováveis, que sejam menos poluentes."

Fukushima, por exemplo, agora aposta completamente em energia limpa, produzida a partir de fontes renováveis. A cidade espera aumentar sua cota dos atuais 40% para 100% até 2041.

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Exemplo japonês pode ser repetido no Brasil?

Para reduzir o consumo de energia logo após o terremoto e o tsunami de 2011 e evitar blecautes, começou um movimento civil que ficou conhecido como setsuden e mobilizou famílias e empresas a fazerem esforços significativos nesse sentido.

Com o Brasil vivendo a maior crise hídrica desde 1931 e com risco de racionamento compulsório de energia no país, será que um movimento como o setsuden seria possível por aqui?

"Temos que levar em consideração os aspectos culturais. No Japão, esses compromissos são firmes. A partir do momento em que estabelece que precisamos rever algo, a população assume muito isso", começa por explica o especialista.

Além disso, Alexandre Uehara afirma que a população brasileira não possui dados para tomar uma decisão como essa, e que falta planejamento do governo federal.

"O governo [da ex-presidente] Dilma [Rousseff] foi muito de apagar incêndio, o governo [do ex-presidente Michel] Temer nem se fala e agora o governo Bolsonaro também […]. Não sabemos o dia de amanhã", comenta. Ele recorda que o Brasil enfrenta no momento um problema energético e hídrico e que a questão não é resolver o problema agora, mas sim o fato de não termos solução a médio e longo prazo.

"Acho que isso é um problema governamental […]. Isso é política pública, é uma decisão que o governo tem que tomar e orientar a população como seguir. E a gente percebe que, nesse aspecto, no Brasil está muito complicado", lamenta.  

Enquanto no Japão a população sabia quais eram as políticas do governo para o médio e longo prazo e, dessa forma, mobilizava-se e fazia um compromisso em reduzir o consumo de eletricidade, no Brasil, de acordo com o especialista, não se sabe, politicamente, o que vai acontecer no ano que vem.

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Cooperação Brasil-Japão

Alexandre Uehara afirma que uma das áreas que em a cooperação entre Japão e o Brasil pode ser muito profícua e vantajosa para os países é a energia solar.

"O Brasil é um país tropical, tem muito Sol o ano inteiro e a gente aproveita muito pouco a energia solar. Ainda é uma tecnologia cara, mas no Brasil está se popularizando mais", afirma.

O Japão produz essa tecnologia e pode trazê-la para o Brasil. O especialista afirma que de 2011 para cá o país asiático começou a investir mais na energia solar e que em breve a tecnologia vai baratear e que o Brasil pode se beneficiar disso.

Alexandre Uehara cita também o know-how do Brasil em biocombustível, como o etanol, que teria muito espaço para avançar no Japão e a própria área de energias renováveis como um todo, uma vez que o Japão tem muito que avançar ainda nessa área e possui a meta de cortar 46% das emissões de gases de efeito estufa até 2030 e zerar emissões até 2050.

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Eficiência japonesa

O consumo de energia no Japão caiu 8% entre 2011 e 2018, mas no mesmo período a economia do país asiático cresceu na mesma taxa.

"Japão tem conseguido eficiência energética. Comparando com os países do G7 [grupo que reúne algumas das maiores economias do mundo], na relação PIB/energia, o Japão é o país mais eficiente. Para cada dólar produzido, o Japão gasta menos energia do que todos os demais países do G7. Apesar de o Japão importar quase 90% de sua energia, o Japão conseguiu ter uma eficiência muito grande, tanto que de 2010 para cá o Japão conseguiu ter um crescimento do PIB, diminuindo o consumo de energia no país", comenta o especialista.

Alexandre Uehara afirma que existe por parte do governo japonês uma política de incentivo nesse sentido. As empresas são encorajadas a produzir de forma mais eficiente.

"Nos últimos anos, os carros japoneses ganharam muito em termos de eficiência. Fazem mais quilometragem com menos combustível […]. Há uma eficiência que vem sendo ganha na indústria, para produzir com menos energia, e existe mesmo uma competição, incentivada pelo governo, com premiações. Hoje eles consomem menos para fazer o mesmo que antes. Isso faz parte da cultura. No Brasil, a gente troca lâmpada, já é alguma coisa", brinca.

Alexandre Uehara conclui afirmando que há um grande potencial de o Japão ser um caso de sucesso na redução das emissões de gases de efeito estufa e se tornar uma referência, exportando tecnologia para outros países.

"Existe compromisso político [com a meta climática] e esse compromisso acaba se disseminando pela sociedade. Tem vários fatores que corroboram com a ideia de que o Japão vai de fato investir para que isso aconteça. Até para poder vender as tecnologias, disseminar essa tecnologia para outros países. Existe um potencial grande para o Japão ter esse sucesso. Japão teve sucessos tecnológicos com computadores, walkman, videocassete, e isso agora é uma oportunidade que o Japão tem de novo ser uma liderança mundial, no campo do meio ambiente."

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