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Com a pandemia, Bolsonaro levou Brasil à 'renúncia de liderança regional', diz especialista

Após perder o seu principal aliado no cenário internacional, com a derrota de Donald Trump na eleição presidencial norte-americana, Jair Bolsonaro ficou praticamente isolado internacionalmente em um momento de alta nas críticas à sua gestão.
Sputnik

Na última segunda-feira (24), o presidente Jair Bolsonaro participou da cerimônia de posse do novo presidente do Equador, Guillermo Lasso, o que marcou a sua primeira viagem internacional desde o começo da pandemia.

A participação da cerimônia de posse de Guillermo Lasso, ex-banqueiro e visto como político de centro-direita, foi encarada como uma tentativa de angariar novos aliados no âmbito internacional.

O cientista político e professor de Relações Internacionais da UFF, Eduardo Heleno, em entrevista à Sputnik Brasil disse que o presidente eleito do Equador pode se tornar um aliado de Bolsonaro, mas "com certas limitações".

"A aproximação entre os dois presidentes se dá um tanto por convergência ideológica um tanto por pragmatismo, como ocorrera nos anos anteriores em que os dois países tinham governantes de esquerda. Em relação à Lasso, que foi banqueiro, basta ver a lista de líderes que compareceram a sua posse, e notamos a convergência pelo grande campo da direita", observou.

"No entanto, lembremos que Bolsonaro é um representante da extrema-direita, daí as limitações para a aliança", acrescentou o especialista em políticas latino-americanas.

De acordo com o cientista político, a maneira com que Bolsonaro lidou com a pandemia da COVID-19 levou ao seu isolamento e a "renúncia do papel de líder regional que o Brasil vinha realizando nos últimos anos".

"Bolsonaro adotou uma política muito próxima daquela exercida por Donald Trump, preferindo estar mais presente nas redes sociais e nas aglomerações do que comprometendo esforços para contenção da pandemia no Brasil", afirmou Heleno.

Com a pandemia, Bolsonaro levou Brasil à 'renúncia de liderança regional', diz especialista

Para o especialista, o alinhamento de Bolsonaro à política de Trump, mas sem ter o poder norte-americano, levou o presidente brasileiro a ter dificuldade na política externa em sua interação com importantes atores como a China, a Organização Mundial da Saúde e fabricantes de vacinas como a Pfizer.

"Não devemos esquecer que a eleição de Joe Biden deu um novo rumo à política externa norte-americana, com profundo impacto no governo Bolsonaro. Biden defende a vacinação, a cooperação na área de saúde e o estímulo da ciência na produção de soluções. É a antítese de seu antecessor", completou.

Já o cientista político e professor da Universidade Veiga de Almeida, Guilherme Carvalhido, em entrevista à Sputnik Brasil, também afirmou que a "posição negacionista em relação à pandemia" por parte de Bolsonaro levou o presidente a ter um isolamento no cenário internacional após a saída de Trump, levando a importantes consequências para o governo brasileiro.

De acordo com ele, o isolamento de Bolsonaro complicou bastante o "estabelecimento de contatos de acordos do Brasil em relação aos mais diversos assuntos, principalmente com as questões ambientais, que são processos fundamentais de visualização em relação ao país".

Ao comentar a estratégia do presidente Jair Bolsonaro para manter a sua popularidade e ter força nas eleições de 2022, Guilherme Carvalhido observou que, desde que assumiu o cargo, Bolsonaro sempre buscou uma política de confrontação.

"Bolsonaro sempre assumiu uma posição que ele trabalha para o que a gente chama de governo de uma minoria, onde ele sabe que grande parcela da sociedade brasileira, e é uma parcela em torno de 15-20% adota o procedimento que conduz às opiniões do presidente", explicou.

De acordo com Carvalhido, "Bolsonaro aplicou essa conduta em 2018 e vai tentar novamente essa mesma conduta em 2022, ou seja, é uma política de confronto, de embate, principalmente embate contra o que eles chamam de situações de esquerda, o que eles chamam mais genericamente de comunistas".

Para o cientista político, a lógica de confronto "coloca a pauta de costumes como elemento principal, não a pauta econômica, o que traz a possibilidade de Bolsonaro construir um discurso favorável a ele dependendo do contexto".

"Só que o contexto da pandemia, trazendo as mais de 450 mil mortes, e principalmente os problemas econômicos, estão desfavorecendo a posição do presidente, e hoje há uma tendência de que Bolsonaro venha a perder a eleição de 2022 no segundo turno, conduzido justamente por essa política de confronto que deu certo em 2018, mas não está dando certo agora em decorrência do contexto econômico e pandêmico que a gente vive a todo momento", completou.

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