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Por que o Brasil vive o pior momento da pandemia 1 ano após 1º caso de COVID-19?

Em 26 de fevereiro de 2020, o Brasil confirmou oficialmente o primeiro caso de COVID-19. Um homem de 61 anos, morador de São Paulo, que havia viajado para a Itália, foi o primeiro a ser diagnosticado com a doença. Após um ano, a Sputnik Brasil conversou com especialistas para entender o atual momento do país na pandemia.
Sputnik

Há exatamente um ano, quando o primeiro caso de COVID-19 foi confirmado no Brasil pelo Ministério da Saúde, o país já havia visto o potencial destruidor do vírus na Itália e em outros países, mas ainda não podia dimensionar o estrago que estava por vir.

Nas semanas seguintes, com o início da quarentena na maioria das grandes cidades, talvez nem o brasileiro mais pessimista apontasse que no final de fevereiro de 2021 o país viveria seu pior momento na pandemia, com uma média móvel de 1.150 mortes nos últimos sete dias, a maior registrada desde o início da contagem.

Enquanto as expectativas eram de "achatar a curva" e tentar zerar o número de casos até o final do ano, a realidade é que, desde o dia 26 de fevereiro de 2020 até hoje, o Brasil já registra 251.661 óbitos e 10.393.886 de pessoas infectadas pelo novo coronavírus.

Para o médico infectologista Rafael Galliez, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o grande problema do país foi a "falta total de coordenação e liderança" do Ministério da Saúde. O especialista afirma que o órgão não comandou de forma adequada a rede do SUS, com as devidas integrações de processos e sistemas de monitorização laboratorial e de vigilância.

"O que vimos foi uma resposta descoordenada, competitiva (entre estados e governo federal), sem ter uma coordenação de forma eficaz. Acho que todos pagamos esse preço de não termos uma efetiva liderança para coordenar", disse Galliez em entrevista à Sputnik Brasil.

Com base nos levantamentos do consórcio de imprensa, apenas dois estados - Espírito Santo e Sergipe - estão com o número de casos em queda neste momento. Acre, Roraima, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas estão com crescimento acelerado de novos casos diários. Os demais possuem números constantes, mas ainda em volume significativo. 

"Um ano depois, o que estamos vendo é uma elevada letalidade e uma dificuldade, inclusive, de mapear a entrada [em outros estados] da nova variante de Manaus. Vemos um efeito dominó. Agora, um ano depois, o cenário é muito ruim", diz o professor da UFRJ.

A capital do Amazonas, onde surgiu a nova cepa do novo coronavírus, foi uma das cidades que mais sofreram com a pandemia, com a superlotação de hospitais e falta de oxigênio para os pacientes. O ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, está sendo investigado por suposta omissão na crise de Manaus.

Por que o Brasil vive o pior momento da pandemia 1 ano após 1º caso de COVID-19?

Galliez cita alguns momentos da pandemia em que não foram tomadas medidas de restrição de circulação que seriam cruciais para reduzir a transmissão do vírus. Segundo o infectologista, teria sido essencial endurecer as ações de combate à COVID-19 em junho e no final de novembro do ano passado, quando os casos estavam em alta.

"As medidas de restrição são indicadas em momentos de maior transmissibilidade. Com a pressão do setor comercial, houve a abertura de shoppings em todas as capitais para o Dia dos Namorados, o que sinaliza que o setor não teve o entendimento do que era o cenário da transmissão. Então, acho que teve um cabo de força, e o setor produtivo e a saúde pública não conseguiram chegar a um diálogo", afirmou o infectologista.

A virologista Giliane Trindade, professora do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que o gerenciamento da pandemia foi "um verdadeiro fiasco".

Ela lembra que, historicamente, o Brasil tinha, entre países em desenvolvimento, uma posição de destaque e liderança na saúde pública. Porém, segundo a especialista, o governo desmontou as condições de combate eficaz à disseminação do vírus e de controle da pandemia.

"A grande questão é que tinha condição de fazer muito melhor. O que faltou foi competência e vontade política. Não era para estarmos dessa forma. Eu vejo que o maior erro foi o governo tentar desqualificar a grandiosidade da pandemia, a partir do negacionismo", diz Trindade.
Por que o Brasil vive o pior momento da pandemia 1 ano após 1º caso de COVID-19?

A professora acredita que o melhor momento do governo no que diz respeito a orientações para a população foi quando Luiz Henrique Mandetta (DEM) comandou o Ministério da Saúde, no início da pandemia.

Ele acabou demitido do cargo em abril pelo presidente Jair Bolsonaro justamente por divergências na condução da crise sanitária. "Na fase do Mandetta, havia um controle, o Ministério da Saúde tinha uma cara, com ações sendo conduzidas. O ministro tinha condições de fazer uma gestão da pandemia", afirma a professora.

"Outro problema do governo foi se apegar a mitos, como a questão do tratamento precoce, o não uso de máscara e o questionamento do distanciamento social. Tínhamos três armas: distanciamento, usar máscara e higienização das mãos. A falta do exemplo do líder é muito grave, porque temos uma nação que vai seguir. Não tivemos uma liderança centralizada", lamentou.

O Brasil está na contramão do mundo no registro de novos casos da doença. Segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado na terça-feira (24), o número de casos globais de COVID-19 caiu 11% na semana anterior a 21 de fevereiro. Foi a 6ª semana consecutiva de queda.

Para os especialistas, o país não conseguiu promover as medidas de isolamento nos momentos de pico da pandemia, e a conta está chegando ainda mais alta agora.

Galliez alerta que o Brasil precisa se inspirar em instrumentos adotados por países como Nova Zelândia, Austrália e China. Segundo o infectologista, esses países "mostraram que as restrições, quando bem aplicadas, são capazes de reduzir a circulação [do vírus] no momento em que está muito alta."

A vacinação no Brasil em comparação a outros países

O Brasil tem 6.338.137 de vacinados contra a COVID-19 até esta quinta-feira (25), segundo o consórcio de imprensa com base em dados das secretarias estaduais de Saúde. Do total, 1.750.781 (0,83% da população) receberam a segunda dose e podem, de fato, entrar na conta dos imunizados.

Com isso, a quantidade total de pessoas que já receberam a vacina equivale a apenas 2,99% da população brasileira, ainda muito distante da sonhada imunidade coletiva (entre 60% e 70%).

As duas vacinas que foram aplicadas no Brasil até o momento foram a CoronaVac, desenvolvida pela companhia chinesa Sinovac e produzida pelo Instituto Butantan, e a da Oxford/AstraZeneca, em uma parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Após largar atrás na corrida global por imunizantes e insumos, o Brasil negocia a chegada de novas doses. Na semana passada, o Ministério da Saúde anunciou que o país receberá 220 milhões de doses até julho, totalizando 230,7 milhões.

Devido à falta de doses, muitas cidades, como Rio de Janeiro, Salvador e Cuiabá, já tiveram que interromper o processo de vacinação.

"Acho que estamos bastante atrasados. Temos que levar em conta o tamanho do Brasil. Mas o Brasil tem o que eu chamo de capilaridade. O que não temos é o insumo. Faltou uma coordenação acelerada no processo para conseguir garantir esses insumos", afirmou o médico infectologista Rafael Galliez.
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Para a virologista Giliane Trindade, também faltou planejamento do Ministério da Saúde e do governo federal. Ela compara a situação do Brasil com a do Chile, que é o 9º colocado no ranking de países com as maiores taxas de vacinação do mundo, já tendo aplicado o imunizante em 16% de sua população.

O país que mais vacinou até o momento é Israel, que administrou pelo menos uma dose em 50% da população do país, sendo que 35% já receberam a segunda.

"Na média, estamos muito atrasados. Não seguimos com a tradição que tínhamos em termos de programas de imunização. Apesar das dificuldades e da desigualdade social, era para o Brasil ter liderança no quesito entre países em desenvolvimento", disse Trindade.

Recuperação em 'K' da economia

A saúde é a prioridade do país, mas a crise econômica também não pode ser desprezada. Nesta sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que a taxa de desemprego no país no trimestre encerrado em dezembro ficou em 13,9%.

Ao todo, são 13,9 milhões sem trabalho, sem contar os 5,5 milhões que desistiram de procurar emprego, considerados desalentados na classificação do órgão.

O PIB (Produto Interno Bruto) de 2020 ainda não foi oficialmente divulgado. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a queda deverá ser de 4,3%, resultado pior que os de 2015 e 2016, quando o recuo foi de 3,5% e 3,3%, respectivamente.

Por que o Brasil vive o pior momento da pandemia 1 ano após 1º caso de COVID-19?

Para Paulo Gala, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o auxílio emergencial dado em 2020 foi o que impediu uma queda ainda maior.

"Sem o auxílio, nossa queda do PIB seria de uns 10%. Ajudou na recuperação. Também foi muito importante o Banco Central ter reduzido a taxa de juros, que fez o setor imobiliário aquecer", afirma o economista.

Enquanto muitos países falam em recuperação em "V", o Brasil pode ter uma retomada em "K", segundo Gala. A letra representaria a recuperação apenas da classe alta e uma perda continuada de renda dos mais pobres, aprofundando ainda mais a desigualdade social do país.

O professor ressalta que quem mais sofreu com a crise foram trabalhadores de serviços "de baixa qualificação", como garçons, atendentes de loja e recepcionistas, com fechamento de restaurantes e empresas.

"Quem tem acesso a home office praticamente não está sofrendo na pandemia. Faz tudo on-line", disse Gala.

Para o economista a renovação do auxílio emergencial ainda é essencial para 2021, mas o governo precisará criar outros mecanismos para ajudar a população mais vulnerável no médio e longo prazo.

"Ainda é fundamental o auxílio, porque o nível de atividade está despencando. Quando foi cancelado em janeiro, a economia voltou a mergulhar. Teremos uma recessão no primeiro trimestre. Estamos esperando queda entre 0,5% e 1% [na comparação com dezembro, já corrigindo a sazonalidade]. O governo precisará agir com programas de transferência de renda permanente e investimento público em saúde, saneamento e infraestrututa em geral, para reativar economia", afirmou.
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