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Ambientalista: declaração de Salles sobre meta de emissão de carbono foi 'insuficiente e imoral'

Especialista em meio ambiente ouvido pela Sputnik Brasil falou sobre as recentes declarações de Ricardo Salles, que afirmou que o Brasil poderá antecipar meta de emissão zero, caso receba uma verba bilionária de outros países.
Sputnik

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou ontem (8) que o Brasil poderá antecipar o cumprimento da meta de neutralidade na emissão de carbono, fixada no Acordo de Paris, caso receba US$ 10 bilhões (cerca de R$ 51,8 bilhões) por ano como compensação por serviços ambientais. A meta com que o país vai se comprometer é a de atingir a neutralidade nas emissões de gases causadores do efeito estufa até 2060.

Para debater este assunto, a Sputnik Brasil falou com o Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima. A entidade classifica as declarações de Salles como mais uma tentativa de chantagear países ricos. Para o Observatório do Clima, a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) anunciada é insuficiente e imoral.

Acordo de Paris

O Acordo de Paris é um compromisso mundial sobre as alterações climáticas e prevê metas para a redução da emissão de gases do efeito estufa. Em 12 de dezembro de 2015, o acordo foi assinado após várias negociações, entrando em vigor em 4 de novembro de 2016. O Brasil assinou o Acordo de Paris em 2015, comprometendo-se a reduzir até 2025 suas emissões de gases de efeito estufa em até 37% (comparados aos níveis emitidos em 2005), estendendo essa meta para 43% até 2030.

Ambientalista: declaração de Salles sobre meta de emissão de carbono foi 'insuficiente e imoral'

A meta brasileira

Um dos argumentos do Observatório do Clima é que a redução de 43% nas emissões em 2030 não está em linha com nenhuma das metas do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a menos de 2°C ou a 1,5°C. Ela nos levaria a um mundo cerca de 3°C mais quente se todos os países tivessem a mesma ambição.

Em um momento em que dezenas de países começam a aumentar significativamente a ambição de suas metas, em linha com novas recomendações da ciência, o Brasil oferece um esforço adicional de apenas 6%, que já estava proposto antes mesmo de o Acordo de Paris ser adotado. De acordo com Márcio Astrini, "o mundo mudou, mas as metas do Brasil não".

O pesquisador do Observatório do Clima entende como chantagem o fato de Salles ter condicionado a antecipação da meta de 2060 ao pagamento de uma quantia bilionária.

Segundo Astrini, "é uma postura totalmente equivocada. O Brasil ganharia muito cumprindo suas agendas de clima, principalmente porque ela é baseada na diminuição do desmatamento. Isso é algo que faria bem para o mundo, e principalmente para o Brasil, uma vez que a Amazônia é importante para a imagem do país".

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As declarações de Salles foram feitas após reunião no Palácio do Planalto ao lado dos ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) e Tereza Cristina (Agricultura). Os termos da proposta, de acordo com Salles, foram aprovados por unanimidade no encontro.

Questionado se a presença de outros ministros no encontro concedia mais credibilidade às falas de Salles, Márcio Astrini acredita que não. Segundo ele, "o peso de qualquer governo está nas ações concretas do dia-a-dia. Não adianta o governo Bolsonaro prometer algo para daqui a quatro anos. Principalmente se neste momento o que ele faz é contrário a qualquer política ambiental que poderia ser colocada em prática".

"O que nós temos, nesses dois primeiros anos de Bolsonaro, são dois aumentos do desmatamento na Amazônia, dois aumentos de incêndios florestais, inclusive com a tragédia no Pantanal neste ano, e dois aumentos de emissões do efeito estufa. Para nós, não interessam as palavras do governo, que normalmente são ruins. O governo precisa fazer. Não adianta falar que vai resolver daqui a 40 anos", afirmou.

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De acordo com o ministro Salles, o pagamento de contribuição financeira por outros países, à razão de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 51,8 bilhões) por ano, será considerado já a partir do ano que vem, por meio do programa Floresta + Carbono. Ele poderá ser substituído no futuro quando houver a regulamentação dos artigos relativos ao tema de mercado de carbono do Acordo de Paris.

O especialista ouvido pela Sputnik Brasil, porém, discorda desta avaliação. "Não tenho a menor dúvida de que este governo, desde a redemocratização do Brasil, é o pior governo em todos os aspectos da área ambiental", afirmou.

Segundo Márcio Astrini, "esse governo inaugurou uma nova forma de fazer ambientalismo no Brasil, que é colocar a força do governo federal ao lado do crime. É isso o que está acontecendo na Amazônia. Os grileiros de terra, os garimpeiros ilegais, essas pessoas recebem boas notícias para trabalhar confortavelmente em suas ações na região amazônica. E aqui estamos falando de empresários do crime. Pessoas que investem dezenas de milhões de reais para desmatar a floresta e invadir terras públicas apostando na impunidade, na falta de fiscalização. Essas pessoas estão trabalhando muito mais a vontade com este governo".

Críticas no exterior

Enquanto o Brasil é alvo de forte críticas internacionais por sua gestão do meio ambiente, o Executivo brasileiro rebate as críticas. Ao defender sua política, acusa haver interesses escusos e que visam prejudicar o país nas queixas. Em um embate com o presidente da França, Bolsonaro acusou Emmanuel Macron de ter pensamentos colonialistas. Na época, fez um comentário em uma rede social sobre tom sensacionalista com que Macron se refere à Amazônia. "Não contribui em nada para a solução do problema", escreveu.

Ambientalista: declaração de Salles sobre meta de emissão de carbono foi 'insuficiente e imoral'
Semanas depois, o presidente voltou a protagonizar discussões sobre desmatamento na Amazônia com Leonardo Di Caprio, Greta Thunberg e Joe Biden. Para Astrini, o governo apresenta dificuldades em lidar com questões ambientais.

"Quem acha que o governo está fazendo um trabalho ruim não são apenas ambientalistas, mas cientistas, investidores, empresas, líderes mundiais [...]. Há quase uma unanimidade de que este governo é uma catástrofe na área ambiental e de clima. Infelizmente, isso não vai mudar, porque o governo é guiado pelo negacionismo. É um comportamento recorrente, que nega a ciência. É um governo que negou a pandemia, e ele fez isso com a mesma intensidade com que nega a questão ambiental e as mudanças climáticas", afirmou o pesquisador.

"Este governo não assume responsabilidades, e diz que o problema do desmatamento é do satélite, dos índios, da ONU [...]. São criadas teorias da conspiração para tentar explicar sua falta de responsabilidade sobre tudo o que está acontecendo. Quando olhamos para frente, continuamos vendo esse governo parado, ou ajudando o problema a crescer ainda mais", concluiu.
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