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Submarino Humaitá é decisão acertada da Marinha do Brasil, opina analista

Para o especialista em defesa Ricardo Cabral, os submarinos da classe Riachuelo, que terá seu segundo modelo lançado no próximo dia 11, representam um ganho em relação aos submarinos atuais, pois têm muito mais capacidades.
Sputnik

No dia 11 de dezembro, a Marinha do Brasil lançará ao mar o segundo submarino da classe Riachuelo, que é resultado da cooperação tecnológica com a França e garantirá maior controle sobre a Amazônia Azul, a faixa litorânea que compreende a zona econômica exclusiva (ZEE) do país, cuja área corresponde a aproximadamente 3,6 milhões de quilômetros quadrados, equivalente à superfície da floresta Amazônica.

O Humaitá é o segundo navio da classe, que já lançou ao mar o Riachuelo, que atualmente está em fase de testes finais e estará totalmente operacional para a Marinha em 2021. No total, o projeto contará com quatro submarinos do tipo convencional, movidos à bateria, recarregadas por motor a diesel. Além de Riachuelo e Humaitá, está nos planos da Marinha a construção de outros dois navios, o Tonelero, previsto para 2021, e o Angostura, que deverá ser lançado em dezembro de 2022.

Em entrevista à Sputnik Brasil, o especialista em Defesa, pesquisador da Escola de Guerra Naval e professor de Relações Internacionais, Ricardo Cabral, opina que a nova embarcação é um submarino muito melhor em comparação com os atuais, da classe Tupi, que também são fabricados no Brasil.

"Trata-se de um submarino com muito mais capacidades que os submarinos que a Marinha já teve e os atuais da classe Tupi. A classe Riachuelo possui uma autonomia muito maior, pode submergir mais profundamente e cobrir uma distância de 13 mil milhas a uma velocidade de oito nós, podendo chegar a 20 nós, ou seja, pode navegar por mais de 24 mil quilômetros. Ao compará-la com a classe Tupi, que possui 16 torpedos para serem lançados em oito tubos, a classe Riachuelo tem capacidade de levar 18 torpedos e mais oito mísseis Exocet SM39 em seis tubos de torpedo, ou seja, tem muito mais capacidade. Além disso, ele chega a 400 metros de profundidade, enquanto o Tupi chega a cerca de 300 metros", comenta o especialista.

Programa Prosub

O submarino Humaitá faz parte do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub) da Marinha do Brasil, que foi lançado em 2008 e também contempla a construção de um complexo de infraestrutura industrial e de apoio à operação. O modelo da embarcação é baseado no francês Scorpene, mas é um pouco maior para poder atender às necessidades de defesa de uma área tão extensa quanto a Amazônia Azul. 

Cabral afirma que "todo submarino é projetado para a defesa, mas que se trata de um meio extremamente ofensivo". Segundo o especialista, a embarcação "é utilizada na negação do uso do mar, ou seja, a presença do submarino coloca toda uma esquadra adversária em cheque, já que tem grande autonomia e muitas capacidades de atingir qualquer alvo. [...] Ele consegue atirar contra vários alvos, sem revelar sua posição, e se evadir da área muito rapidamente, para se preparar para uma nova ação", avalia.

De acordo com a Marinha do Brasil, a Amazônia Azul abriga as reservas do pré-sal e é de onde sai 75% do petróleo, 75% do gás natural e 45% do pescado produzido no país. Nesta área, existem recursos naturais e uma rica biodiversidade ainda inexplorados. Além disso, é através do litoral que mais de 95% do comércio exterior brasileiro é escoado.

Para o pesquisador da Escola de Guerra Naval, o litoral brasileiro "tem problemas seríssimos, como o descaminho, o tráfico de drogas, de armas, a pesca predatória, etc., e precisa de uma vigilância maior, tanto assim que o submarino será usado nesse contexto". No entanto, o especialista acredita que não bastam apenas os submarinos, mas todo um sistema que envolva unidades de superfície e acompanhamento por satélite e aviação, "para que seja possível atuar contra essas ameaças".

"O submarino é uma arma muito nobre, ele não vai à superfície para interditar uma pesca predatória. Quando ele perceber alguma coisa, o máximo que ele pode fazer é avisar aos meios distritais ou à esquadra, para que envie um navio para coibir essa prática", afirma Cabral.

Submarino Nuclear

O ápice do projeto Prosub é o desenvolvimento de um submarino de propulsão nuclear, batizado de Álvaro Alberto, em homenagem ao almirante que foi um dos grandes incentivadores do programa nuclear da Marinha. Sua construção está prevista para iniciar no segundo semestre de 2022, com previsão de conclusão para 2033.

Na opinião de Cabral, o programa nuclear está atrasado devido à sequência de crises econômicas que sacudiram o Brasil e à questão do planejamento. Segundo o especialista, "não é possível dar continuidade ao planejamento sem recursos".

"Atualmente, em termos técnicos, o projeto avança mais lentamente, mas está avançando. Existe a expectativa de que os recursos voltem a fluir de maneira contínua e dentro do que é esperado. No entanto, a possibilidade de um aporte maior de recursos para recuperar o atraso, neste momento, me parece que foi descartada. Ou seja, a perspectiva é que se retome o fluxo normal, que deverá ser seguido para concluir o processo em cerca de nove, dez anos. A possibilidade de uma aceleração vai depender das melhores condições econômicas do país", opina.

Modernização da Frota

Cabral considera que, além do Prosub, é necessário que a Marinha do Brasil retome outros projetos, como o Prosuper, que contempla um conjunto de projetos de construção de navios­ escolta, navios logísticos e outros meios de apoio naval.

"O Brasil passou muito tempo sem investir na modernização de suas forças. A frota de superfície também está bastante desgastada, com navios entrando rapidamente em obsolescência, bastante defasados. Então, o esforço deve ser constituir o submarino nuclear, prioridade número 1, mas sem descuidar da força de superfície. Foi iniciado agora o projeto com a classe Tamandaré, espera-se que, no futuro próximo, o Prosuper se estabeleça com a construção das cinco fragatas previstas, um número que também já está ultrapassado, pois o país precisa de mais fragatas", avalia.

SisGAAz

Além desses projetos, o pesquisador da Escola de Guerra Naval considera que, para garantir a defesa da Amazônia Azul e ter uma consciência situacional melhor do que acontece no Atlântico Sul, o ideal seria retomar o projeto SisGAAz, o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul, que, na sua opinião, "é o maior de todos os projetos da Marinha".

"O SisGAAz é um sistema que possibilita uma ampla cobertura da área e vai permitir a vigilância, o acompanhamento dos navios e uma leitura mais aperfeiçoada, não só do que está acontecendo na superfície, mas no entorno estratégico do Brasil e do Atlântico Sul, cobrindo inclusive a área de salvamento e resgate. É um projeto maravilhoso, que não serve apenas para a defesa, mas para o Brasil como um todo, já que se utiliza de muita ciência, de muito conhecimento, e o Brasil poderá, a partir dele, fazer muito mais em termos de exploração racional dos recursos naturais, vivos e não vivos, com muito mais eficiência e sem danos ao meio ambiente", conclui.
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