Processos de impeachment contra governadores refletem anseio popular, diz pesquisador

Além de Wilson Witzel, afastado do cargo de governador no Rio de Janeiro, outros governadores passaram a correr o mesmo risco ao longo de 2020. Para discutir as razões dessa situação, a Sputnik Brasil ouviu o cientista político Ricardo Ismael.
Sputnik

Nesta terça-feira (13), a comissão especial da Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou um segundo pedido de impeachment contra o governador Carlos Moisés (PSL). Ao longo da semana, Moisés pode ser afastado do cargo pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina, que discutirá a questão.

Esse seria um destino semelhante ao de Wilson Witzel (PSC), governador afastado no Rio de Janeiro pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e depois pela Assembleia Legislativa carioca, onde responde por um processo de impeachment em andamento. Outros governadores também tiveram pedidos de impeachment protocolados contra si, como Hélder Barbalho (MDB), no Pará, e Wilson Lima (PL), no Amazonas.

Para Ricardo Ismael, cientista político, professor da PUC-Rio, esse quadro de aumento de pedidos de impedimento contra governos estaduais "chama a atenção" e tem pontos em comum.

"As acusações, as investigações em curso, dizem respeito aos gastos que foram efetuados nas secretarias da Saúde estaduais durante o enfrentamento da pandemia de COVID-19. Portanto, esse tipo de investigação, até pelo fato de a gente estar vivendo uma emergência nacional, uma tragédia, chama muito a atenção, ganha muita visibilidade", afirma o pesquisador em entrevista à Sputnik Brasil.

Para ele, esse aspecto de conexão direta com a pandemia é um dos motivos de essa situação ter mais impacto e visibilidade, pois causa maior indignação entre as pessoas. Ismael também acredita que a população brasileira tem se tornado menos tolerante com a corrupção entre políticos.

"A população brasileira, o eleitorado brasileiro, tem se colocado cada vez mais de uma forma muito dura com relação aos políticos que eventualmente se envolvem com essas irregularidades, com crimes de improbidade administrativa. E a Assembleia Legislativa, muitas vezes para reagir à opinião pública, para dar satisfação à opinião pública, termina às vezes enveredando por um caminho que, claro, não deve ser banalizado, que é o processo de impeachment do governador", afirma.
Processos de impeachment contra governadores refletem anseio popular, diz pesquisador

Ismael também ressalta que esses processos de impedimento tiram o foco dos governadores da administração pública e incentivam um clima de instabilidade política, uma vez que os acusados precisam articular de alguma maneira a sua defesa e permanência no cargo. O professor também recorda que esses processos têm impactos sobre o enfrentamento à pandemia.

"Nas quatro situações [de pedidos de impeachment contra governadores] as questões são relativas à secretaria estadual de Saúde, em um momento em que ela precisaria estar em sua plenitude para enfrentar esse grave problema da pandemia da COVID-19", afirma, acrescentando que a crise se estende para a área econômica nos estados e que os governadores teriam papel importante na recuperação desse setor.

O cientista político também recorda que Witzel e Moisés foram eleitos em partidos pequenos e posando como pessoas de fora da política, capazes de renovar a prática governamental e atender aos anseios populares contra a corrupção. Para ele, mesmo que os processos de impeachment estejam ainda em andamento, essa situação cria uma frustração entre os eleitores.

"A população anseia para que haja mudanças de fato na política, de maneira que a gente comece a trilhar um caminho no qual ao menos o dinheiro público seja tratado com zêlo, com atenção, para que não haja problemas que certamente nos últimos anos deixaram os brasileiros e brasileiras muito decepcionados", conclui.
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