EUA estão se atrasando tecnologicamente em relação à China, diz especialista

O Departamento de Comércio dos EUA havia colocado a Huawei na lista negra de empresas, mas a liderança do gigante tecnológico chinês na área 5G estaria pondo em desvantagem empresas norte-americanas.
Sputnik

O Departamento de Comércio (DoC, na sigla em inglês) dos EUA está se preparando para lançar novas regras permitindo às empresas tecnológicas dos EUA desenvolver padrões da tecnologia 5G juntamente com a chinesa Huawei, relata a agência Reuters.

As empresas norte-americanas interromperam a cooperação com a Huawei por medo de sanções depois que a empresa chinesa foi colocada na "lista negra" pelo DoC dos EUA.

No entanto, a quebra dessa cooperação coloca as empresas norte-americanas em uma posição desvantajosa, visto que a Huawei é líder nos padrões 5G.

O documento está em revisão final pelo DoC e em breve será enviado a outros órgãos para aprovação, de acordo com a fonte. É possível que o documento seja uma reação a uma carta de um grupo de senadores dos EUA, entre os quais os "falcões" anti-chineses Marco Rubio e Tom Cotton, enviada ao Departamento de Comércio, ao Departamento de Estado e ao Pentágono.

Nessa carta, os senadores enfatizaram a necessidade de desenvolver legislação que garanta a participação dos EUA no desenvolvimento de padrões mundiais de 5G. Eles também chamaram a atenção do DoC para o fato de que as sanções contra empresas chinesas não devem impedir os EUA de liderarem o desenvolvimento de padrões tecnológicos internacionais.

Dominação crescente da China

A inclusão da Huawei e de várias outras empresas chinesas na "lista negra" pelo DoC em maio de 2019 dificultou a posição das empresas norte-americanas. As sanções estabelecem que as companhias norte-americanas não podem fornecer produtos e software a parceiros chineses sem permissão especial do DoC.

Mas as regras são tão vagas que as empresas dos EUA não conseguem determinar que tecnologia e propriedade intelectual podem compartilhar com empresas chinesas. Para evitar sanções secundárias, eles decidiram recusar qualquer troca de informações com empresas chinesas.

No entanto, as organizações internacionais de padronização têm representantes de diferentes países, incluindo da China, o que torna impossível desenvolver padrões sem tais trocas.

Além disso, os representantes chineses lideram algumas delas, incluindo a União Internacional de Telecomunicações, ou dominando como membros votantes, como no 3GPP (3rd Generation Partnership Project).

Os padrões internacionais em algumas novas tecnologias ainda não foram elaborados, especialmente no 5G, e a Huawei detém mais de um terço das patentes nesta área, mais do que qualquer outra empresa. Por essa razão, se torna praticamente impossível excluir a China do processo de definição de padrões mundiais.

EUA estão se atrasando tecnologicamente em relação à China, diz especialista

O resultado é que, durante a discussão de importantes decisões sobre padrões, os representantes dos EUA são obrigados a ficar em silêncio e, portanto, as decisões são tomadas sem eles, razão pela qual os senadores norte-americanos apelaram para o DoC.

Tentativa de contenção da China

As novas regras devem esclarecer o processo de intercâmbio de conhecimento e tecnologia e possibilitar às empresas norte-americanas e chinesas a cooperação no desenvolvimento de padrões comuns. Mesmo assim, os EUA devem continuar restringindo a concorrência e impedindo que a Huawei e outras empresas chinesas construam infraestrutura de telecomunicações.

No entanto, eles vão permitir que empresas dos dois países trabalhem juntas para desenvolver padrões, diz Cui Lei, pesquisador júnior do Departamento de Estudos Americanos do Centro de Pesquisa de Problemas Internacionais da China, à Sputnik China.

"Por agora, é difícil considerar este passo como uma intenção dos EUA de flexibilizar as sanções contra as empresas chinesas de alta tecnologia. Acredito que as autoridades dos EUA vão considerar de forma separada a construção de infraestrutura e a elaboração de padrões".

O pesquisador chinês diz, referindo possíveis tendências, que as empresas chinesas terão luz verde para estabelecer padrões, mas, quanto à admissão da Huawei e de outras empresas chinesas nos mercados ocidentais, os Estados Unidos deverão continuar afirmando seu ponto de vista e invocando questões de segurança nacional para impor restrições.

"Primeiro, [é necessário saber] como se desenvolverá a retórica interna norte-americana sobre a China, e qual será o posicionamento estratégico da China. Segundo, precisamos ver se haverá algum progresso na tecnologia. A Huawei, por exemplo, já consegue conduzir pesquisas e desenvolvimento em 5G, reduzindo sua dependência dos Estados Unidos".

Vantagem no 5G

A China já lançou redes comerciais 5G, enquanto os EUA ainda estão decidindo a faixa de frequência em que as redes de quinta geração serão construídas. No entanto, observa o analista, é pouco provável que os EUA reconheçam seu atraso tecnológico em relação ao país asiático.

"Acho que os EUA não reconhecem seu atraso tecnológico porque nos últimos 100 anos os EUA têm permanecido como um definidor de tendências na alta tecnologia. Os EUA já disseram que não iam competir com a China em 5G, mas que construiriam imediatamente redes 6G".

O especialista chinês acredita que tudo isso mostra que os EUA não querem fazer compromissos, procurando, sim, competir com a China ou mesmo ultrapassá-la.

EUA estão se atrasando tecnologicamente em relação à China, diz especialista

"Naturalmente, é um caminho difícil e as empresas americanas entendem isso. Espero que as autoridades sejam mais pragmáticas sobre a questão da interação com a Huawei e outros concorrentes, que se comprometam com uma cooperação construtiva, e não a rejeitem".

Tecnologia e geopolítica

A conclusão é que os EUA não querem abrir mão de sua posição para Pequim no desenvolvimento de padrões, porque quanto mais padrões desenvolvidos pelas empresas chinesas de tecnologia forem aceitos no mundo, mais vantagem competitiva essas empresas ganharão.

Os EUA estão cientes do fato de que, em primeiro lugar, o estabelecimento de padrões determina a transferência de suas próprias tecnologias patenteadas, pela utilização das quais serão cobrados direitos.

Em segundo lugar, quem estabelecer padrões obtém sistemas compatíveis e uma enorme quantidade de dados que podem ser usados para criar novos produtos, e torná-los universais para todos.

A experiência de empresas norte-americanas como a IBM ou a Qualcomm mostra que empresas que estabeleceram padrões acabam ocupando uma posição quase monopolista no mercado, algo que a China também sabe.

Nos últimos anos, a seguinte expressão virou ditado no ambiente empresarial chinês: empresas de terceira ordem fabricam produtos, empresas de segunda ordem desenvolvem tecnologias, e empresas de primeira ordem estabelecem padrões.

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