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Ideologia deve ficar de lado, adverte analista sobre ida de Bolsonaro ao Uruguai

No domingo (1º), o Uruguai celebrará a posse do novo presidente do país, Luis Lacalle Pou e uma nova página nas relações com o Brasil pode se abrir. A Sputnik Brasil consultou um analista a respeito do tema, que alertou para o crescente papel da ideologia nas relações exteriores brasileiras.
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Em novembro de 2019, o novo presidente uruguaio venceu a Frente Ampla, coalizão de esquerda do candidato Tabaré Vázquez que governava o país há 15 anos. Lacalle Pou é considerado um nome da centro-direita uruguaia e filho de um ex-presidente do país, Luis Alberto Lacalle, que governou o Uruguai entre 1990 e 1995.

A posse de Lacalle Pou contará com a presença do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro - a primeira cerimônia do tipo com a participação do líder brasileiro.

A ida de Bolsonaro ao Uruguai chama a atenção, pois o presidente não esteve na posse de Alberto Fernández na Argentina no final de 2019, quebrando uma tradição do Brasil de marcar presença nesse tipo de cerimônia no país vizinho que é também o maior parceiro comercial do Brasil na região.

Para Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a presença de Bolsonaro no Uruguai é decorrência da percepção de uma proximidade ideológica com Lacalle Pou, o que é diferente do caso de Fernández.

"[A ida de Bolsonaro a Montevidéu] se justifica no fato de haver um alinhamento ideológico e mesmo de interesses com o presidente do Partido Nacional agora no Uruguai. Os dois, de fato, convergem com uma bandeira mais à direita no espectro latino-americano com orientação econômica mais liberal, algo que certamente não combina tanto com as posições assumidas até aqui pelo presidente Fernández", aponta.

Apesar da aparente proximidade, durante a campanha presidencial no Uruguai, Lacalle Pou promoveu esforços para descolar sua imagem do presidente brasileiro. Isso porque Bolsonaro, assim como no caso argentino, tornou pública a sua preferência por um candidato à direita no país, no caso, o próprio Lacalle Pou, que avaliou à época que o apoio do brasileiro seria negativo para sua campanha.

Para Velasco, há certamente interesses ideológicos em comum entre ambos, mas há limites para essa aproximação, como no caso da abordagem sobre o período da Ditadura Militar.

"O que certamente o Uruguai não aceita e não aceitará jamais é qualquer tipo de posicionamento que a gente faça em defesa do período da Ditadura Militar aqui no Brasil. O Uruguai fez um trabalho muito sério de memória histórica, então é absolutamente intolerável para a sociedade uruguaia qualquer elogio a ditadores militares de qualquer tipo e de qualquer nacionalidade", afirma.

Velasco também comenta sobre o Mercosul, apontando que apesar da importância da Argentina nas disputas internas do bloco, ter o apoio do Uruguai será necessário.

"Ainda há muitas arestas a serem aparadas e realmente ter o governo de Montevidéu ajuda certamente no avanço de algumas pressões e na busca por entendimento com Buenos Aires, sim. O grande desafio aí é a busca de um denominador comum nas negociações com o governo argentino", avalia.

O professor ainda comenta sobre o papel que a ideologia tem desempenhado no governo de Jair Bolsonaro, influenciando diretamente as relações com países da região - o caso de Uruguai e Argentina.

"A ideologia acaba contaminando as relações bilaterais, o que é muito negativo. Ainda mais tendo em vista a importância desse relacionamento, a aliança estratégica que existe entre Brasil e Argentina. Os interesses de Estado deveriam ficar acima de eventuais paixões ideológicas e político-partidárias, mas não é o que temos visto", aponta o professor Velasco.
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