Poderia Israel ganhar ao 'apostar no gás' nas relações com Egito?

O recente início de fornecimento de gás ao Egito por Israel pode ajudar a melhorar as relações bilaterais, que sofreram alguns avanços com o atual presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi.
Sputnik

O abastecimento de gás israelense ao Egito certamente reforçará as relações entre os dois países, afirma o ex-embaixador israelense no Egito, Zvi Mazel, mas não conseguirá aproximar os dois povos, simplesmente porque o Egito ainda guarda fortes sentimentos anti-Israel, que nem mesmo seu presidente atual Abdel Fattah al-Sisi pode mudar.

Faz um mês que Israel, que tem se posicionado como um novo jogador regional na produção de gás, começou exportando combustível para seu vizinho do sul, o Egito.

Segundo relatórios, o fornecimento inicial virá do campo Leviatã, considerado o maior projeto energético da história de Israel, mas também se espera que o gás flua em meados deste ano a partir do campo mais pequeno de Tamar.

Cenário inverso

Este não era o caso há apenas uma década. Faminto de energia, historicamente Israel tem importado seu gás do Egito, mas esse fornecimento chegou ao fim em 2011.

O ex-embaixador disse em declarações à Sputnik Internacional que houve vários fatores que contribuíram para o fim dessa cooperação.

Em primeiro lugar, foi o surgimento da Primavera Árabe, que chegou ao Egito em janeiro de 2011.

"Quando o presidente Hosni Mubarak se demitiu e mais tarde foi substituído por um membro da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi, que por sua vez foi deposto pelo atual líder Abdel Fattah al-Sisi, isso se refletiu na estabilidade do fornecimento de gás", disse ele.

A mudança de liderança também não ajudou em termos de segurança, com militantes de vários grupos terroristas bombardeando o gasoduto uma dúzia de vezes durante 2011 e 2012.

Poderia Israel ganhar ao 'apostar no gás' nas relações com Egito?

Quando o fluxo finalmente parou em 2012, o Egito foi obrigado a pagar cerca de US$ 3 bilhões (R$ 13 bilhões) em compensação pelas perdas sofridas por Israel quando o Cairo decidiu cortar abruptamente seu fornecimento de energia. Outras ações judiciais, de consumidores europeus e asiáticos, se seguiram rapidamente, o que para a vacilante economia egípcia foi um duro golpe.

Fome de gás

Mas os problemas não pararam aí. A população do Egito tem vindo a crescer rapidamente, passando de 85 milhões de pessoas em 2011 para mais de 100 milhões menos de uma década depois. As autoridades têm lutado para satisfazer as crescentes necessidades energéticas da população egípcia.

Mesmo o desenvolvimento do campo de gás de Zohr, considerado o maior do Egito, e que produz 76 milhões de metros cúbicos de gás por dia, não tem sido capaz de atender às demandas da população, principalmente porque o Egito estava atrasando o desenvolvimento do projeto.

"Quando este campo estiver totalmente desenvolvido, será capaz de fornecer ao Egito a energia de que este necessita. Mas até isso ser alcançado, o Egito provavelmente precisará confiar no que Israel tem a oferecer", disse Mazel.

Para o Estado judaico este é um negócio lucrativo. Segundo as autoridades, Israel deverá ganhar cerca de US$ 60 bilhões (R$ 259,7 bilhões) nos próximos 20 anos com a exportação de gás.

Gás como instrumento?

Mais importante ainda, o ex-embaixador acredita que o negócio do gás pode reforçar os laços entre os dois países e até mesmo melhorar as relações, embora não vá mudar as atitudes e sentimentos em relação a Israel no terreno.

"Um acordo de gás é feito entre um par de companhias, não entre o povo. Embora tenhamos um acordo de paz com o Egito há 40 anos, eles se esforçam por manter as relações em um nível muito baixo, com uma interação entre os dois povos reduzida ao mínimo".

A razão para isso não é apenas a falta de progresso na resolução do conflito israelo-palestino, mas também o nacionalismo egípcio e árabe, que nutre pouca simpatia pelas minorias.

"Muitas guerras no Oriente Médio decorrem do fato de que a população árabe não reconhece os direitos de outros povos a esta região. O Islã também tem contribuído para o problema. Embora o presidente Sisi esteja tentando mudar a narrativa, os muçulmanos estudiosos do Egito ignoram-no em grande parte, continuando a espalhar sentimentos anti-israelenses", afirma Zvi Mazel.

Isso, porém, parece estar mudando. Quando o presidente al-Sisi chegou ao poder, o Egito introduziu novos livros didáticos que, embora ainda mantendo atitudes da era Mubarak em relação aos judeus e a Israel, mudaram sua abordagem sobre o acordo de paz entre os dois países.

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