Ao que pode levar fechamento de bases dos EUA na Turquia? Analista explica

Segundo uma pesquisadora sênior do instituto russo MGIMO, esta ação poderia isolar a Turquia de toda a OTAN, e fazer com que contra-acusação turca de genocídio não seja levada a sério.
Sputnik

O encerramento pela Turquia das bases de Incirlik e Kurecik para os militares dos EUA significará congelar as relações com a OTAN, disse a pesquisadora sênior do Centro de Segurança Euro-Atlântica do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO), Yulia Kudryashova. Segundo sua análise, os custos políticos, militares e orçamentais seriam demasiado elevados e uma decisão irracional para Ancara.

Anteriormente, o presidente turco Tayyip Erdogan declarou que o país pode fechar as bases militares de Incirlik e Kurecik aos EUA em resposta às sanções dos norte-americanos, e que o Parlamento turco pode adotar uma resolução sobre o genocídio de índios durante a colonização da América em resposta ao reconhecimento pelo Senado dos EUA do genocídio armênio no Império Otomano em 1915.

Segundo Kudryashova, a Turquia já está "falando sobre o fechamento de bases, preparando o terreno após a tentativa de golpe militar no verão de 2016, porque se sabe que a conspiração de oficiais foi preparada precisamente na base da Incirlik".

"Se esta base for realmente fechada, isso significaria congelar as relações da Turquia com a OTAN. Vai ser difícil porque, em primeiro lugar, ela está armada com armamento da OTAN. Mesmo com eles comprando o nosso [russo] sistema S-400, ele é realmente tecnicamente incompatível com as armas da OTAN. Ou seja, isso representa um rearmamento do exército. Não parece muito realista, dado as despesas orçamentais que implica, e a Turquia agora não tem a melhor situação econômica", disse a especialista.

Ela também observou que nas bases estão estacionados não só militares dos EUA, mas também, por exemplo, alemães. "Isso também significaria congelar as relações com a Europa", acrescentou Kudryashova.

"Em outras palavras, os custos políticos e militares disso são muito altos, e são muito dispendiosos para o orçamento. Portanto, em qualquer caso, se a questão for colocada, não será possível fazer isso no curto prazo, de repente, preparar o terreno para isso demora muito tempo. E se não se tratar de uma questão emocional, mas sim de uma preparação cuidadosa, então é improvável que a Turquia o faça, porque seria irracional da sua parte", disse ela.

Reconhecimento mútuo de genocídios

Quanto à ameaça do reconhecimento pela Turquia do genocídio dos índios, Kudryashova afirmou que não existe praticamente nenhuma base jurídica para o mesmo, porque aconteceu há demasiado tempo. Além disso, a especialista considera que a Turquia não conseguirá obter nada com o reconhecimento do genocídio.

"Se o genocídio dos armênios for reconhecido nos EUA ao mais alto nível, isso significaria enormes despesas financeiras para a Turquia, com o pagamento de indenizações aos descendentes. Uma proporção muito grande de descendentes dos armênios que foram deportados da Turquia vive agora nos EUA e está preparando essas demandas. Quanto à Turquia, ela não conseguirá nada em termos financeiros exigindo o reconhecimento do genocídio dos índios. Isso não passa de slogans altissonantes. Em termos práticos, ela não vai obter quaisquer resultados", sublinhou.

Pano de fundo do caso

Anteriormente, o Senado dos EUA adotou uma resolução sobre a necessidade de reconhecer e recordar oficialmente o genocídio armênio. A resolução pretende expressar a opinião da câmara alta de que os EUA devem honrar a memória do genocídio armênio através do reconhecimento oficial e da memória. Além disso, a resolução insta a não permitir tentativas de envolver as autoridades dos EUA ou associá-las à negação do genocídio armênio "ou qualquer outro genocídio", bem como estimular a divulgação do genocídio armênio. O Ministério das Relações Exteriores turco condenou essa resolução.

Ao que pode levar fechamento de bases dos EUA na Turquia? Analista explica

A base aérea de Incirlik, na província de Adana, no sul da Turquia, é utilizada pela Força Aérea dos EUA. Os militares dos EUA mantêm um radar de alerta de ataques de mísseis no distrito de Kurecik na província de Malatya, no sudeste da Turquia, que faz parte do sistema de defesa antimísseis da OTAN na Europa.

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