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Celso Amorim: militares se aliaram a Bolsonaro pelo poder, mas vivem mal-estar no governo

O ex-chanceler do Brasil, Celso Amorim, deu uma entrevista à Sputnik Mundo, publicada nesta terça-feira (30), comentando as eleições na Argentina, a prisão de Lula, o escândalo da Vaza Jato e o acordo Mercosul-União Europeia.
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Celso Amorim foi ministro das Relações Exteriores do Brasil durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e também com Itamar Franco. Com Lula, foi um dos pivôs da construção dos BRICS e destacado interlocutor internacional do Brasil.

Na entrevista concedida em espanhol à Sputnik Mundo, um dos pontos tratados foi justamente a sua opinião em relação ao ex-presidente petista, com o qual sua carreira tem relação próxima. Amorim afirmou que entende que há participação dos EUA com autoridades brasileiras, questionou o atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e afirmou ter esperança que Lula seja colocado em prisão domiciliar.

"A parcialidade do juiz Moro se mostra em detalhes e o visível acordo entre ele e os procuradores, e por si mesmo demonstra que o processo é insustentável. Mantemos a esperança firme e lutamos pela liberdade de Lula, mas a cada dia novas coisas são tentadas. O quadro político é hoje mais favorável. Poderíamos chegar à saída de Lula em dois meses, com prisão domiciliar", destacou Amorim, lembrando da solidariedade do Papa Francisco e também do prêmio Nobel da Paz, Pérez Esquivel.

O ex-chanceler também afirmou acreditar que há "indícios fortes de cooperação real e profunda" entre autoridades brasileiras e funcionários do Departamento de Justiça dos EUA.

Militares se alinharam a Bolsonaro por poder, mas impediram guerra com Venezuela

Em um dos pontos da entrevista, Amorim comentou o que pensa sobre o vínculo entre o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) com os militares brasileiros.

"Há diferenças, mas não sei até que ponto. Creio que com Bolsonaro viram a possibilidade de estar de volta ao poder. Alguns por ideologia e outros não. Os militares estiveram sem ocupar cargos de importância por 20 anos. É uma coisa um pouco complexa a posição muito conservadora, reacionária eu diria, de alguns militares contra o PT e a esquerda. Há um certo mal-estar entre eles e o governo. Por exemplo: estivemos muito próximos de uma guerra com a Venezuela sob o pretexto da ajuda humanitária. Poderia ter sido uma situação muito séria que terminaria em tragédia. Foram os militares, com mais noção, que impediram esse cenário", disse o ex-chanceler.

Amorim também afirmou que o Brasil nunca havia tido um presidente "nem na época dos militares, do tipo de extrema-direita, com as características ideológicas como as de Bolsonaro, com ódio reprimido de classe, racial e de gênero".

Segundo ele, a reforma da Previdência e as privatizações são duas das políticas econômicas mais prejudiciais da atual administração. Amorim também chamou de "nocivas" as intenções do governante de realizar mudanças de costumes entre os brasileiros.

"O mais grave são as tentativas de facilitar as armas entre a população, que podem terminar nas mãos de milícias irregulares, também uma ameaça para a população mais pobre, para as minorias e para os negros, como aconteceu com Marielle Franco", destacou.

O ex-chanceler também criticou a forma como as decisões de Bolsonaro tem impactado nas relações internacionais do Brasil.

"O Brasil tomou decisões inacreditáveis em matéria de direitos humanos ou meio ambiente na política internacional. Todas as decisões parecem ser reacionárias. Fui chanceler por dez anos e membro da diplomacia por 40 anos. Nunca vi algo assim. Agora há uma política expressa contra o que é progressista", disse Amorim.

Acordo Mercosul-UE e eleições na Argentina

Amorim não se colocou contra o acordo fechado entre o Mercosul e a União Europeia. Porém, o ex-diplomata sustentou que há riscos para a indústria regional e que é perigoso fazer um acordo dessa natureza em um momento de debilidade econômica.

"Não somos contra o acordo Mercosul-União Europeia, mas é apressado fazê-lo em um momento de grande debilidade, sobretudo por causa das eleições e a crises financeira, no caso argentino. Não se pode negociar quando se está ameaçado, porque o interlocutor percebe. Ninguém leu as letras pequenas do acordo, estou seguro de que será muito grave para a reindustrialização de nossos países", afirmou.

O ex-chanceler também comentou as eleições que se aproximam na Argentina, afirmando que:

"[As eleições na Argentina] terão um grande impacto em toda a região. Todas as forças e as elites locais apontarão contra [o candidato da oposição] Alberto Fernández. Nós subestimamos esse aspecto. Os EUA, o chamado 'Estado Profundo', os interesses financeiros nos consideram seu quintal. Em função de tudo isso haverá uma pressão muito grande para evitar que tenhamos novamente governos progressistas", ponderou Amorim.

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