Cota-parte do dólar nas reservas globais atinge mínimo: estaríamos à beira de nova ordem financeira?

A cota-parte do dólar nas reservas internacionais globais atingiu seu mínimo em 20 anos, informa o último relatório do Banco Central Europeu (BCE).
Sputnik

A Sputnik explica o que significa essa tendência e por que cada vez mais bancos centrais decidem reduzir seus investimentos em títulos americanos.

Segundo o último relatório do BCE dedicado ao papel do euro nas transações internacionais, em 2018 a cote-parte do dólar nas reservas dos bancos centrais em todo o mundo foi de apenas 61,7% – um mínimo histórico desde a criação União Económica e Monetária da UE em 1999, enquanto a cota-parte das outras moedas está crescendo gradualmente.

O BCE enumera três razões para a queda do interesse pelos ativos denominados em dólares.

Volatilidade e reversão de fluxos de capitais

A primeira é a volatilidade nos mercados financeiros e a reversão de fluxos de capitais transfronteiriços, que fez com que os países emergentes com grandes reservas internacionais (incluindo Argentina, Índia e Turquia) realizassem intervenções no mercado cambial para estabilizar suas divisas nacionais.

Vendendo dólares, os bancos centrais reduzem a cotação do dólar frente a suas moedas nacionais, seguindo o princípio da oferta e da demanda: quanto mais dólares há à disposição, mais baratos eles ficam.

Entre março e setembro de 2018 eles venderam reservas no valor de cerca de 200 bilhões de dólares (cerca de R$ 770 bilhões), denominadas principalmente em dólares, reduzindo assim a cota-parte da moeda estadunidense nas suas reservas.

Diversificação para reduzir riscos

A diversificação é o princípio fundamental da teoria moderna do portfólio. Não é de surpreender que os bancos centrais por todo o mundo também queiram diversificar suas reservas para se protegerem dos fatores negativos.

Nos últimos tempos, o problema que mais preocupa alguns grandes países é a introdução de sanções unilaterais por parte de Washington.

Por exemplo, após a introdução de vários pacotes de sanções, a Rússia, que já no início do ano passado foi um dos maiores detentores de títulos do Tesouro dos EUA, decidiu se livrar da maioria dos seus ativos em dólares, apostando em euros e yuans.

Apenas em um ano (de abril de 2018 a abril de 2019), Moscou vendeu cerca de 87% dos seus títulos do Tesouro dos EUA e ficou fora da lista dos 30 maiores detentores de dívida pública estadunidense publicada pelo Departamento do Tesouro dos EUA.

Tensões com China em meio à guerra comercial

A China, o maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro dos EUA, também reduziu seus investimentos nesse ativo em meio à escalada da disputa comercial com Washington.

Vale ressaltar que em abril de 2019 o volume dos títulos da dívida pública estadunidense nas reservas internacionais chinesas atingiu seu mínimo, desde maio de 2017, de 1,11 trilhão de dólares (cerca de R$ 4,26 trilhões) em comparação com 1,12 trilhão de dólares (R$ 4,3 trilhões) no mês anterior.

Até os aliados dos EUA apostam na desdolarização

Os últimos dados do Departamento do Tesouro dos EUA revelaram uma tendência absolutamente nova: mesmo os aliados mais próximos de Washington se estão livrando dos títulos da dívida pública dos EUA.

Por exemplo, em abril de 2019, o Reino Unido encabeçou a lista de maiores vendedores dos títulos estadunidenses, se livrando de títulos no valor de 16,3 bilhões de dólares (R$ 62,6 bilhões).

Além disso, o Japão, o segundo maior credor dos EUA, também vendeu títulos no valor de 11,07 bilhões de dólares (R$ 42,5 bilhões).

Em geral, os investidores estrangeiros estão vendendo seus títulos da dívida pública dos EUA por 12 meses consecutivos – um prazo recorde nos tempos modernos.

Alternativas à ordem financeira existente

De acordo com o BCE, se livrando do dólar os bancos centrais e fundos soberanos estão aumentando o volume dos ativos denominados em outras moedas de reservas tradicionais: euro, iene japonês e libra esterlina.

Mais uma tendência importante é o interesse crescente nos investimentos em moedas não tradicionais: o dólar australiano, o dólar canadense e, principalmente, o yuan chinês.

Outra tendência é a compra massiva de ouro pelos bancos centrais por todo o mundo: em 2018 eles compraram 74% mais ouro que em 2017 (as compras somaram 651,5 toneladas), enquanto no primeiro trimestre de 2019 os bancos centrais compraram 145,5 toneladas de ouro, ou seja, 68% mais do que no mesmo período de 2018.

Tudo isso significa que o nosso mundo está se tornando cada vez mais multipolar: se há 10 anos o dólar dominava incontestavelmente o sistema financeiro global, hoje em dia a situação está mudando: a divisa estadunidense enfrenta concorrência por parte dos novos adversários e em breve, possivelmente, iremos testemunhar o aparecimento de uma nova ordem econômica global.

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