General sobre campanha afegã da URSS: EUA faziam de tudo para adiar nossa saída

No dia 15 de fevereiro de 1989 terminou a retirada do contingente de tropas soviéticas do Afeganistão, completando-se assim 30 anos desde esse acontecimento.
Sputnik

Por essa ocasião, a Sputnik Dari falou com o coronel-general Boris Gromov, o comandante do 40º exército que participou da campanha militar soviética no Afeganistão, sobre as dificuldades da campanha, sobre o processo da retirada soviética e como os EUA solicitaram sua ajuda em sua própria campanha afegã.

O general comentou como ele avaliava as chances de sucesso da URSS no início da guerra e como sua visão mudou no curso das ações de combate.

"Estive no Afeganistão por três vezes. No início eu não conseguia julgar se a decisão [de implantar o contingente] estava certa ou não. Depois de um ano e meio, quando eu conheci praticamente todo o Afeganistão, percebi que o intento que [a liderança da URSS] queria realizar era na verdade inatingível", confessou.

De acordo com ele, os EUA e a OTAN faziam de tudo para envolver a URSS no Afeganistão, sem o tentarem disfarçar. Além disso, ele apontou que na decisão de introduzir as tropas nem todos os fatores foram tomados em consideração.

30 anos: a saída sem volta das tropas soviéticas do Afeganistão
"A meu ver, durante a tomada de decisão sobre a introdução das tropas e a ajuda internacional das autoridades da URSS ao Afeganistão, pelo visto, nem tudo foi levado em conta, ou então havia outras considerações que desconhecemos. Para mim agora é óbvio que a introdução das tropas [soviéticas] foi preparada de forma irrefletida", disse.

Segundo o general, o 40º exército não tinha um objetivo concreto no Afeganistão, a não ser manter o controle sobre a situação e impedir o alastramento de conflitos a partir de fora.

"A introdução das tropas no Afeganistão foi uma antecipação às ações dos norte-americanos, o que se pode considerar como a única vantagem da missão das tropas soviéticas no país. A questão poderia ter sido resolvida de outra maneira como, por exemplo, em vez de enviar um agrupamento de 140.000 militares soviéticos, manter apenas aquele que já tinha sido introduzido – de 30.000. Seria um número suficiente para manter a estabilidade e o poder nas áreas principais", assinalou.

O general recordou que o comando do 40º exército insistia na saída das tropas soviéticas do Afeganistão ainda em 1983, mas a sério essa questão começou a ser estudada em 1985, quando "ficou claro que não tinha como resolver a questão pela força".

Comentando a campanha, Gromov disse: "Nós demonstramos a todos, inclusive aos norte-americanos que enquanto no Afeganistão estava operando o 40º exército era inútil se meter ali e entrar em guerra com a URSS […] Porém, os EUA faziam de tudo para adiar a saída das tropas soviéticas do Afeganistão."

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O general disse que não concorda com a afirmação de que a URSS tenha sofrido uma derrota nessa campanha.

"Não pode se falar de nenhuma derrota […] O 40º exército no Afeganistão nunca recebeu de ninguém ordens para vencer militarmente. Quem diz que o nosso exército sofreu ali uma derrota devem ser considerados 'contadores de histórias'", apontou.

Falando do próprio processo de retirada das tropas, o general indicou que este não foi fácil. Segundo ele, a URSS tinha uma grande rede de agentes em todos os lados envolvidos no conflito, portanto todos eles foram previamente avisados sobre as intenções da URSS.

"A retirada foi realizada quase sem perdas, mas foi muito complicada", recordou.

Segundo ele, uma parte dos líderes soviéticos insistia em deixar no Afeganistão um contingente de 30.000 soldados, enquanto o general não aceitava fazê-lo. Além disso, era difícil retirar uma quantidade tão grande de tropas do Afeganistão através da passagem de Salang na área montanhosa em apenas um mês, enquanto de ambos os lados se escondiam mujahidin afegãos.

O general recordou também que ele conseguiu conciliar com um dos principais inimigos afegãos, Ahmad Shah Massoud, a passagem das tropas soviéticas pelo Vale do Panjshir, no nordeste do país, por meio de mensagens codificadas e encontros pessoais.

Contudo, Gromov lembrou que o então ministro das Relações Exteriores da URSS, Eduard Shevardnadze, insistiu na realização de um forte ataque contra as forças afegãs antes da passagem das duas últimas colunas soviéticas através de Salang. Porém, Ahmad Shah Massoud não respondeu ao ataque. "Provavelmente, Ahmad Shah tinha sido avisado de que nós fomos forçados a efetuar esse ataque", apontou.

O general contou também que representantes dos EUA depois pediram para ele conselhos sobre como lutar no Afeganistão, levando em conta sua experiência.

"Depois do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, representantes da embaixada dos EUA e da OTAN entraram em contato comigo, ainda antes da introdução do contingente norte-americano no Afeganistão. Eu descrevi tudo em 'tons escuros'. Tentei explicar que isso seria muito difícil para eles e que eles não deviam se meter. Mas eles entraram e já há 18 anos que permanecem no Afeganistão", apontou.

Gromov concluiu que os EUA não poderiam repetir a experiência de saída da URSS no Afeganistão por não terem lá tropas terrestres.

"Eles não poderiam repetir a nossa experiência de retirada por não terem tropas terrestres no Afeganistão. Nós saímos por duas vias terrestres. Caso eles queiram retirar as tropas, vão fazer isso com aviação. Os afegãos não lhes vão perdoar se eles também partirem por via terrestre, eles não gostam dos norte-americanos, por isso eles vão sair pelo ar, o que é completamente diferente", ressaltou.

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