Desavença entre Trump e Macron pode estar por detrás dos protestos violentos na França?

Sábado passado foi o segundo dia a fio em que os franceses saíram às ruas por quase todo o país para protestar contra o aumento dos preços da gasolina e do diesel. A Sputnik analisa que motivos ocultos poderiam ter provocado tal levantamento popular.
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Em seu artigo especial para a Sputnik, o autor do blogue Crimson Alter, Ivan Danilov, traça paralelos com as chamadas revoluções coloridas "clássicas" com esses eventos, e sublinha que as forças interessadas nesse levantamento tentam "encaixar" a figura de Emmanuel Macron, presidente francês, no papel do ex-presidente ucraniano derrubado em fevereiro de 2014 na sequência de um golpe de Estado na Ucrânia.

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Entretanto, opina o colunista, Macron é muito diferente pela sua personalidade, ou seja, demonstra que "não tem medo de sangue e violência", o que será seu maior trunfo para continuar no poder.

De acordo com Danilov, as ações de protesto em massa, os confrontos com a polícia e o uso de um símbolo especial — coletes amarelos — poderia ser interpretado como uma "verdadeira rebelião popular contra um presidente impopular". Porém, o jornalista vê nisso uma alegada intervenção externa, argumentando-o com uma série de "coincidências suspeitas" que ocorreram após as declarações de Macron em relação à criação de um exército europeu e à restauração da soberania europeia.

"Pelo visto, suas intenções foram levadas muito a sério, e Washington decidiu tomar as medidas necessárias", opina o autor.

Assim, analisa Danilov, hoje em dia fica evidente que os problemas do presidente francês adquiriram, em primeiro lugar, um caráter econômico. Por exemplo, na opinião da agência Bloomberg, a detenção do presidente da aliança Renault-Nissan, Carlos Ghosn, no Japão, foi um golpe pessoal contra Macron. Ghosn, acusado de fraude financeira bilionária, embora tenha um relacionamento complicado com o presidente francês, pode "assombrar" muito a reputação de Macron, que também é acusado de ignorar e até favorecer a corrupção na empresa.

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Para entender melhor o contexto da situação, analisa ele, é importante tomar em consideração mais um fato.

"Atualmente, na Europa está atuando ativamente a mão direita e o chefe de fato da anterior campanha eleitoral de Trump, Steve Bannon, que foi muitas vezes acusado de tentar minar a União Europeia. Em seu recente discurso na Universidade de Oxford, o próprio Bannon mostrou diretamente sua atitude negativa para com Macron e o acusou de trair os interesses da França", escreve Danilov.

Ao mesmo tempo, sublinha o autor, não se pode descartar que Bannon "é um grande especialista em campanhas políticas nas redes sociais" e sabe bem trabalhar através de "métodos subversivos" dirigidos contra o establishment político.

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"Pode parecer que a ligação entre as ações de protesto e massa, o bloqueio de estradas, as barricadas e a posição de Macron quanto à independência europeia em relação aos EUA é uma invenção. Isso não é de descartar, porém é pouco provável, pois o próprio presidente dos EUA, Trump, expôs diretamente no Twitter sua postura quanto àquilo que na verdade está se passando na França", reflete o jornalista.

Donald Trump, por sua vez, realmente postou ontem (25) o seguinte tweet:

"Os grandes e violentos protestos na França não tomam em consideração o quão ruim os EUA têm sido tratados pela União Europeia quanto ao comércio e aos pagamentos justos e razoáveis pela nossa ÓTIMA proteção militar. Ambos os tópicos devem ser resolvidos já."

Na opinião de Danilov, essa mensagem deixa bem clara a postura da administração estadunidense, na qual o presidente ressalta que se a Europa está precisando de proteção, então terá que pagar.

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Neste caso, resume o autor, a França está perante uma escolha: "dar continuidade à transformação da França em uma colônia da UE", pois é isto que Macron pretende fazer, ou continuar com "o estatuto da França como uma colônia dos EUA", com as despesas ainda aumentadas para satisfazer as "ambições de Donald Trump".

Toda a situação em torno dos protestos franceses mostra mais uma vez, ressalta o colunista, que o Ocidente unido deixou de existir e que os "antigos aliados" passaram a usar uns contra os outros "armas" que anteriormente usavam exclusivamente contra inimigos externos.

"Em um certo sentido, começou uma guerra civil política transatlântica, e quanto mais tempo as partes em confronto estejam ocupadas uma com a outra, melhor para todo o mundo, que já está bem farto tanto das ambições geopolíticas estadunidenses, quanto das europeias", concluiu.

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